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7 de nov. de 2015

ESTRADAS QUE NÃO LEVAM A PARTE ALGUMA

Grande parte dos seres humanos vive o martírio da solidão, estejam sozinhos ou não.


Procuram suas metades num amor incondicional, devoram livros de auto-ajuda buscando uma segurança vendida à granel, se embrenham nas redes virtuais à procura de ouro e só encontram imitações, viajam nos sonhos marginais da virtualidade ou da ficção, porque perseguem a metade ideal da laranja. 


E ainda que muitos duvidem da existência dessa metade ideal, misturam-se e igualam-se aos demais nessa busca inócua, dado que essa descrença sem plena  convicção pesa menos que a necessidade.


Se é verdadeiro que nenhum ser humano é igual a outro, também é que todos são absolutamente sós, do dia que nasceram até o fim das suas vidas, e a sensação de conforto por se sentirem acompanhados de seus pares, filhos, pais etc., não é suficiente para a plenitude e em tempo integral.


É da espécie humana o hábito gregário, porque uns precisam dos outros para a sobrevivência, o que não traduz exatamente num bem-estar permanente, conceito bem diferente da inexistente felicidade permanente.


Porque nada do outro ou do coletivo chega à “alma” de forma duradoura, se não há consciência do ‘estar só’, essa condição intrínseca de quem vive, mas que não leva ninguém ao martírio da solidão e às estradas místicas dos ideais utópicos do prazer e felicidade.

Antes  do "eu sou mais eu.... o "eu sou só"


12 de ago. de 2014

PATAGÔNIA

foto de Ângela Loij
















Uma foto de capa da National Geographic de um Yaghan coberto de rugas me fez ir às terras do fim do mundo, como é conhecido o arquipélago da Terra do Fogo.

Era outono e logo entendi de onde vinham as marcas daquele índio. Depois de Rawson e Trelew já ventava e fazia muito frio, que só não incomodava tanto porque a vontade de chegar era maior, mas esse chegar é só uma maneira de dizer, porque não tinha onde chegar, só tinha um ir até onde houvesse terras pra pisar.

E ficaram pra trás, Puerto Desejado, Cabo Blanco, Três Montes, e Paraíso, esta minúscula localidade com menos de vinte pessoas, referência e último posto de abastecimento antes do Estreito de Magalhães.

Ali terminava o continente americano. A travessia pelo lado chileno, em Puerto Aymont, fazia o barco jogar como uma caixa de fósforo com o encontro das águas mais altas do Pacífico com o Atlântico.

Rio Grande, Ushuaia, canal de Beagle e a ilha de Nasvarino também ficaram pra trás, e terra pra ir não tinha mais, adiante o Oceano Glacial Ártico e o Pólo Sul.

Todo retorno é sempre difícil. O frio, agora sim, era quase insuportável e como nos mapas da América parecia que tudo era subida, mas por alguma estranha atração dessas paisagens desoladoras não foi a única vez que estive nessas terras do fim do mundo.

Esqueci tudo de química, a maioria das fórmulas de matemática; apaguei professores, parentes, amigos de escola, policiais desastrados, talvez porque nada disso tenha sido importante, mas do maior e menos habitado deserto do planeta, dessa primeira estada, bem guardadas ficaram duas coisas: o cão foguino, que me acompanhou por dias, e o encontro com Ângela Loij.

Ambos viraram pó, mas não é pouco lembrar deles – o que o cão me disse não sei escrever, já Angela, com seus olhos rasgados e azuis, o peso dos seus sabe-se lá quantos anos, curvada e muito enrugada, era a última descendente dos Selk´nans, e num confuso  espanhol contou como os brancos mataram seu povo - lembrando dos pais, irmãos, filhos e netos, sabendo que não havia mais ninguém além dela e da memória de maldades inconcebíveis. Peron tinha acabado de voltar do exílio, e ser eleito novamente o presidente da Argentina. Pinochet tinha acabado de se tornar o presidente do Chile, mas eu não sei nada disso e não pus datas como ponho esparadrapos em qualquer arranhão, que minha  memória não dói.

16 de out. de 2013

ARQUITETURA DA MISÉRIA



Costa Amalfitana, estradinha para Vítrio, encosta apinhada de pequenas casas e pés de limão, uma das paragens mais lindas do mundo.Campo Limpo em São Paulo, estrada de M´Boi Mirim, amontoado de pequenas casas cinza, cor da miséria, uma das paragens mais horríveis do mundo.


Com a sensibilidade que vai além da visão embotada pelo preconceito, e sem o sincretismo simplório que mistura tudo, a arquitetura da miséria tem lá suas semelhanças com a Costa Amalfitana. Como aquela, também não segue as normas fixadas pelos doutos que criam os parâmetros do urbanismo. É anárquica em todos os sentidos, porque também não segue as regras formais da construção. Nasce de umas conversas, uns riscos no chão, e sobe rápido porque é simples - tudo perfeitamente de acordo com um único parâmetro - a necessidade e a falta de grana.


Ao contrário da arquitetura formal, em que o engenheiro e o arquiteto, além, claro, do proprietário, quebram a cabeça pra criarem um dormitório a mais, levando em conta os acessos, as leis etc., a arquitetura da miséria é extremamente dinâmica, quase uma “obra aberta”, modifica-se rapidamente a cada novo rebento.


Houvesse uma palavra que definisse esse estilo sem estilo, poderia ser a “arquitetura do puxadinho”. Não dá certo escada por dentro, atrapalha o espaço da TV? Sem problemas... escada pra fora. Ah... chove quando sobe? Sem problemas... outro “puxadinho”.Mais original que as obras da realeza, esse conjunto cinza de blocos de cimento sem acabamento e telhas de fibro-cimento, sem detalhes, que sobe e desce montanhas, é horrível no seu todo não por falta de criatividade, falta uns toques, falta cor!


Imagino se em vez de se colocar tapumes nas avenidas pra esconder os “puxadinhos”, como fez o Lacerda no Rio de Janeiro em certa ocasião, o Estado transferisse recursos inúteis gastos com a existência, por exemplo, do Senado, dispensável na maioria das democracias. Ou das estradas, viadutos, açudes que nunca existiram. Ou os bancos resolvessem deixar de ser tão "unhas de fome" e fizessem um esforcinho...


Imaginem todos os milhares de “puxadinhos” do país com paredes rebocadas e pintadas com a cor da vontade de cada um... Teríamos uma estética anárquica, que fugiria da mesmice, que, dado as proporções, seria única no mundo.


Cor é alegria, bem-estar, transforma as pessoas, e isso não é uma gozação, muito menos uma piração, mas alguém vai dizer que é tampar o sol com a peneira, que o problema é muito mais embaixo num país onde falta tudo, como se eu não soubesse.

Obviamente que num Estado de parlamentares e governantes meias-bocas estejamos muito longe de substituir os "puxadinhos" por algo mais digno. Não obstante há leis de incentivo à cultura, museus, estátuas em praças públicas - o que é esse esforço estético se não para o deleite da alma humana? Então, por que não, além de melhorar a segurança destas cidades dentro das cidades, também colorir e dar vida aos "puxadinhos"?