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21 de fev. de 2016

bilhete só de ida


O mundo corporativo nos obriga a comprar e comprar, quem não participa vai sendo posto de escanteio. Já não se consegue mais ativar um Cartão de Crédito pelo telefone fixo, nossa voz é suspeita de fraude, o número do telefone fixo pode ter sido garfado, e para o banco eu posso não ser eu. 


Preencher um formulário de identificação pela net, pode só funcionar se tivermos um Celular para receber um SMS e dar continuidade na operação.


Na Idade Média, para se entrar num feudo, primeiro vinha sozinho o identificador para que pudessem abaixar a ponte elevada para os demais. Os Condomínios atuais substituíram as pontes elevadiças por clausuras vigiadas por porteiros e câmaras, até que nos identifiquem, mas estas, já se mostram falhas e estão sendo substituídas por sistemas de identificação à distância, sem porteiros.


Automóveis estão sendo testados sem motoristas, há estudos para que aviões possam fazer vôos intercontinentais sem pilotos, e em certas regiões drones já fazem entregas.


O que é o homem, esse que caminha pra não sair do lugar (sic), cuja identificação eletrônica é mais aceitável que sua presença fisica?


Esse bípede falante, que aceita viver cercado de Regras que julga inteligentes, inventadas pela ganância sem limites de filósofos do tecnicismo,  tecnocratas que comandam corporações, políticos que dirigem países -, possivelmente nem perceba que estão excluindo o humano do ser ‘humano’, e  tudo indica que nesse trem só há bilhetes “one way”.

9 de nov. de 2015

'VIRTUOSES' E 'GÊNIOS'

‘Virtuoses’ e Gênios.

O mundo civilizado, que presta alguma atenção à arte, se encanta com os ‘virtuoses’ – esses que chegam a quase perfeição no que escolheram como forma de enganar o tempo (ou foram escolhidos), que além do presente divino, ou genético, chamado talento, têm a incomum força de vontade até o sacrifício, centrados que são nos estudos e objetivos.

E quando se pensa em ‘virtuosidade’ é comum a conexão com musicistas, mas também existe na literatura, ballet, pintura e escultura, porque por melhor que sejam, nenhum expoente economista, publicitário, arquiteto etc, se enquadra no termo, que não se aplica a outras áreas do conhecimento, nem a arte aplicada.

A maioria dos ‘virtuoses’ se dão bem no mundo real, que aprecia suas técnicas e sensibilidades, e retribui lotando teatros, comprando seus livros ou pinturas, cujo valor de troca é efetivo. Claro que podem também ter alguma genialidade, mas ainda que quebrem protocolos em certas ocasiões, não são ‘gênios’.

Não estão à frente do seu tempo como os ‘gênios’, que por romperem com estruturas conhecidas e pré-estabelecidas são mal compreendidos, quando não mal vistos, chamados de loucos ou rejeitados,  e seus valores de troca são compatíveis com essa distância entre o que fazem e o que deles se entende, isso desde que a palavra existe. Podem ser admirados, mas não existe ‘gênio’ bem de vida no sentido monetário.

Quando são músicos ou musicistas, ‘gênios’ não elegem um único instrumento; se escrevem, não só escrevem. O mesmo se aplica aos que pintam ou esculpem – e todos têm em comum além do conhecimento, uma certa falta material e uma dose de loucura pela busca incessante não pela perfeição, mas pelo desconhecido.

Na música houve e há muitos ‘virtuoses’, mas quantos Beethovens? (Hermetos?) Na literatura, poética filosófica, quantos F.Pessoa ou Nietzsche? Nas artes plásticas há muitos ‘virtuoses’, poucos como Miquelângelo, Rembrant, Canova, mas nenhum como Van Gogh, Da Vinci ou Claudel. E ainda que não se adapte bem o termo, incluiria no cinema os ‘virtuoses’ Tarkovski, Kurosawa, Bergman, Truffault, e mais uns tantos, mas nenhum como Fellini ou Wells.

Haverá quem não concorde sobre o que penso e sobre os citados e não citados, não é aritmética, apenas uma reflexão sobre a diferença que normalmente não se faz entre a sensibilidade aliada à técnica esmerada e os que têm nas estrelas a inspiração. 

7 de nov. de 2015

ESTRADAS QUE NÃO LEVAM A PARTE ALGUMA

Grande parte dos seres humanos vive o martírio da solidão, estejam sozinhos ou não.


Procuram suas metades num amor incondicional, devoram livros de auto-ajuda buscando uma segurança vendida à granel, se embrenham nas redes virtuais à procura de ouro e só encontram imitações, viajam nos sonhos marginais da virtualidade ou da ficção, porque perseguem a metade ideal da laranja. 


E ainda que muitos duvidem da existência dessa metade ideal, misturam-se e igualam-se aos demais nessa busca inócua, dado que essa descrença sem plena  convicção pesa menos que a necessidade.


Se é verdadeiro que nenhum ser humano é igual a outro, também é que todos são absolutamente sós, do dia que nasceram até o fim das suas vidas, e a sensação de conforto por se sentirem acompanhados de seus pares, filhos, pais etc., não é suficiente para a plenitude e em tempo integral.


É da espécie humana o hábito gregário, porque uns precisam dos outros para a sobrevivência, o que não traduz exatamente num bem-estar permanente, conceito bem diferente da inexistente felicidade permanente.


Porque nada do outro ou do coletivo chega à “alma” de forma duradoura, se não há consciência do ‘estar só’, essa condição intrínseca de quem vive, mas que não leva ninguém ao martírio da solidão e às estradas místicas dos ideais utópicos do prazer e felicidade.

Antes  do "eu sou mais eu.... o "eu sou só"


17 de mai. de 2015

O BALDE DE GUDES CHAMADO PIB

O nome dele é Luzita, só mais um garoto da minha rua, que dia desses me perguntou (ele ouvia falar todos os dias e não entendia), o que era o PIB?

Então eu disse:

-- Essa é fácil, mas se o Cristiano Ronando é melhor que o Messi, isso eu não sei.

Pensei um pouco antes de começar e falei de uma vez:

-- PIB é uma coisa simples, Luzita, se tudo o que o país faz e os impostos associados à produção fosse trocado por bolinhas de gude e colocado num balde, esse balde se chamaria PIB (produto interno bruto).

-- E é com essa bolinhas que o Estado pagará os investimentos e outras obrigações legais.

-- Se ao fim de um período, sobrarem bolinhas, o país cresceu, coisa que todos sentirão, além dos números, pela maior oferta de trabalho e salários com maior poder de compra.

-- Não é necessário ser economista e entender a linguagem cifrada com base na matemática avançada, misturada à magia de se fazer resultados que se deseja, pra saber se vamos bem ou não.

-- Agora, presta atenção, Luzita. Cada bolinha destas sempre está associada a algum tipo de trabalho, então quando alguém ganha um centavo de qualquer outra maneira, tira indevidamente algumas bolinhas do balde, que é propriedade de todos. Em outras palavras, é o mesmo que dizer: esse alguém está roubando dos verdadeiros donos.

-- Muito diferente de ladrão de carro, de botijão de gás, de supermercado ou de bancos. Essa vontade malévola de enriquecer sem trabalho e grandes riscos, que inspira atenção além do corpo físico, armada de tacapes hodiernos e respaldada sempre por alguma espécie de poder, mata aos poucos os muitos que levam nas costas a nação.

--  Além disso, esse roubo que lesa a pátria não é só dos que enfiaram a mão, mas também dos gastos errôneos e desnecessários do Estado,  cujas bolinhas do balde correspondentes aos impostos, acrescido de dos outros tributos, não dão conta de cuidar bem desse precioso balde, que tem que ceder mais outras tantas bolinhas que não devia nem podia, e que o "economês" oficial sabe que aritmética sem magia não pode explicar.

-- Entendeu, Luzita?

O garoto ficou calado me olhando com um ar estranho, demorou um pouco e disse:

 -- o Cristiano Ronaldo joga muito melhor que o Messi.

1 de ago. de 2014

Arquitetura Pós-Moderna e o Admirável Mundo Novo

ESCADA1

De alguma forma o modernismo na arquitetura pretendeu socializar a habitação e a arte, valorizar os espaços coletivos, baratear o custo das obras retirando o supérfluo, enfim utilizando-se de recursos tecnológicos dividir melhor o “bem-estar”.

E logo me recordo da ficção “O Admirável Mundo Novo” do Aldous Huxley, que mostra o homem mais feliz quando sem contestação nasce e vive pra cumprir funções específicas, aonde ninguém puxa o tapete de ninguém nem inveja o outro, algo que imagino seja parecido com a divisão social num formigueiro.

Mas tenho certeza que o autor não propôs este caminho nem em sonho porque chorou quando descendo do avião viu Brasília à época da sua inauguração.

Obviamente é consenso que todos tem que ter um teto decente, meta de qualquer governo que se preze, e os projetos modernistas foram executados sistematicamente no século passado, não obstante a maioria ser capenga nos seus princípios fundamentais. Temos isso aqui no Brasil e também na maior parte do mundo.Talvez ao longo dos anos algumas das idéias que fundamentaram o modernismo na arquitetura tenham se perdido, quando o “igual” do ideário se transformou no “igual” mal feito, que visou metas políticas ou de lucro fácil.

E assim, como nada é eterno, a arquitetura modernista foi dando lugar outras formas e pensamentos, que vai ocupando esse espaço meio vago, sem uma ordem formal, e por também não ter um nome apropriado é chamado de arquitetura pós-moderna, essa que tem várias caras — desconstrutivista, brutalista, lúdica, futurista etc.O que mais isola e exclui o indivíduo é a desigualdade econômica, não a diversidade e a liberdade de expressão em qualquer das suas formas.

Não seríamos nem melhores, nem mais felizes numa sociedade como a ficção do Huxley, isso na prática é puro fascismo. O homem não é uma barata e não se adapta bem às situações que lhes são adversas por longa data. Ao Estado pode caber o pensamento, que há mais dignidade morar num conjunto habitacional, seja qual for, que viver sob uma ponte. No entanto essa “dignidade” vista à distância não traduz o grau de felicidade do indivíduo.

Os conceitos básicos do modernismo impregnados até hoje nos mecanismos públicos sempre consideraram o homem no coletivo, até porque é difícil ver isso de outra forma, mas cada qual é único nos desígnios da sua vida e não é factível, sem seu consentimento, a qualquer outro escrever o seu destino. Por isso a maioria não privilegiada ainda prefere morar nos seus “puxadinhos” que nos conjuntos “impessoais” feito às pressas.

Outra coisa são os mega-projetos modernistas, caso da cidade planejada de Brasília, que ao fim da obra perguntaram ao urbanista Lúcio Costa, criador da cidade, se ele não sabia que os milhares de “candangos” ficariam por ali mesmo nas cidades satélites (cujo conceito de moradia era o oposto da modernidade). Ele respondeu que Brasília tinha casas pras pessoas morarem, e que este era um problema de revolução e não de arquitetura.

Como se ele não soubesse que a realidade era essa! O que eu penso disso? Penso que tudo é muito difícil, vivemos numa sociedade injusta, desigual nas oportunidades, e nada que é feito no papel por meia dúzia de gatos vai ser a solução para as muitas dúzias de ratos.

Arquitetura da Miséria


Costa Amalfitana, estradinha pra Vítrio, encosta apinhada de pequenas casas e pés de limão, uma das paragens mais lindas do mundo.



Campo Limpo em SP, estrada de M´Boy Mirim, amontoado de pequenas casas cinzas, cor da miséria, uma das paragens mais horríveis do mundo.



Com a sensibilidade que vai além da visão embotada pelo preconceito, e sem o sincretismo simplório que mistura tudo, a arquitetura da miséria tem lá suas semelhanças com a Costa Amalfitana. Como aquela, também não segue as normas fixadas pelos doutos, que criam os parâmetros do urbanismo – é anárquica em todos os sentidos, porque além de não seguir as regras formais da construção, nasce de uns riscos no chão, e sobe rápido porque é simples, tudo perfeitamente de acordo com um único parâmetro — a necessidade e a falta de recursos.



Ao contrário da arquitetura formal, onde o engenheiro e o arquiteto, além, claro, do proprietário, que quebram a cabeça pra criar um dormitório a mais, levando em conta os acessos, as leis etc., a arquitetura da miséria é extremamente dinâmica, modificada a cada rebento que nasce, quase uma “obra aberta”. Houvesse uma palavra que definisse esse estilo sem estilo, poderia ser a “arquitetura do puxadinho”.Não dá certo escada por dentro, come o espaço da TV? Sem problemas… escada pra fora. Chove quando sobe? Sem problemas… mais um “puxadinho”.



Mais original que as obras da realeza, esse conjunto cinza de blocos de cimento e telhas de fibro-cimento, sem acabamento, sem detalhes, que sobe e desce montanhas, é horrível no seu todo não por falta de criatividade.



Imagino se em vez de se colocar tapumes nas avenidas pra esconder os “puxadinhos”, como fez o governador Carlos Lacerda no Rio de Janeiro, o Estado transferisse recursos inúteis, poderia começar extinguindo por exemplo o Senado. Ou os bancos deixassem de ser tão ‘bancos’ e destinassem uma parte ínfima dos seus abusivos lucros.



E todos os milhares de “puxadinhos” do país poderiam ter paredes rebocadas e pintadas com a cor da vontade de cada um… Teríamos uma estética anárquica, que fugiria da mesmice, única no mundo dado as proporções.



Cor é alegria, bem-estar, transforma as pessoas, e isso não é uma gozação, muito menos uma piração, mas alguém vai dizer que é tampar o sol com a peneira, que o problema é muito mais em baixo num país que falta tudo, como se eu não soubesse.



Num Estado de parlamentares e governantes meia-bocas estamos muito longe de substituir os “puxadinhos” por algo mais digno, não obstante há leis de incentivo à cultura, museus, estátuas em praças públicas. O que é esse esforço estético se não para o deleite da alma humana? Por que então não colorir e dar vida aos “puxadinhos”?

19 de jul. de 2014

ARQUITETURA --- ESTÉTICA E FUNCIONALIDADE

Qual a finalidade primeira da arquitetura - dar ao homem abrigo das intempéries, do calor ou frio excessivos ou presenteá-lo com uma estética inovadora?

Questão obviamente muito ampla e subjetiva, porque cada homem é absolutamente único, e também porque o belo não é um conceito universal (só imaginar a nota que daria um jurado pigmeu a uma candidata norueguesa a miss universo).

Não obstante, quem consegue passar do básico e chegar à uma moradia propriamente dita, certamente vai enfeitá-la com objetos e pintá-la com as cores do seu agrado, o que me faz pensar que, de alguma maneira, estética faz parte da vida de todos, ainda que por vezes não saia dos sonhos ou não caiba no bolso da maioria.

E se é uma casa pequena, uma superestrutura ou uma obra institucional, por mais original, surpreendente ou arrojada que seja, não cumpre sua função básica se chover dentro. E não é diferente se o ambiente for muito frio, úmido ou quente demais, que acaba expulsando o indivíduo. 

Aberturas mal posicionadas e e mal pensadas, só podem ser corrigidas com o uso de fontes externas de energia, e em alguns casos nem é possível.

E nessa questão térmica, a maioria das obras é inadequada, mesmo as chamadas "inteligentes" - que com tecnologia de ponta cria ambientes confortabilíssimos - são no fundo muito "burrinhas", uma vez que o planeta tem recursos finitos, e inteligente é o que guarda e/ou economiza energia, não o que esbanja. 

Por isso, arquitetura é mais que teoria, e não deve só surpreender fugindo do "pão de forma", mas ter presente que a pele não se engana, e o sentir-se bem não é só exclusividade da alma, ou a arquitetura só cumpriria seu papel no papel ou nos vetores hiper-realistas da telinha iluminada. 

8 de jun. de 2014

Até breve... nunca mais.

Parou de falar com os cachorros do prédio, com as crianças, nem mais um simples olá ou bom-dia deu aos vizinhos, que ninguém entendeu. 

--- Teria  brigado com a mãe ou uma desilusão amorosa? - se perguntou um.

Poderia ter discutido e ficado aborrecido com a mãe, se tivesse mãe. Mulher também não tinha, e nenhum caso que se soubesse.

Aposentado, ainda fazia uns bicos consertando fechaduras e relógios de parede, sempre acompanhado pelo cão que nunca usou coleira. Mas quando mudou, mudou mesmo - parou de trabalhar, e pediu para desligar o telefone. 

--- Não tinha TV,  e agora também sem telefone... Será que ficou surdo?  - se questionou outro.

Podia ser, mas não parecia. O velho aparentava boa saúde, e seu cão também. Saíam muito cedo, só voltavam ao anoitecer.

--- Onde iam, como gastavam as horas? - curiosos, pensavam todos. 

O edifício era pequeno, antigo, e abrigava uns tantos desempregados, que falavam alto e viviam discutindo. Tudo era motivo pra encrenca - o filho do outro que deu um chute, o grito de gol do time adversário... Os que não gostavam de discussão eram mestres em intrigas. Aquilo era o exemplo saudável do inferno sem o demônio, e o velho solitário deve ter se enchido daquela gente, que pensava em tudo menos nisso.

-- Pode ter recebido uma notícia lá da sua terra, a morte de algum parente que gostava... - falou o síndico para o bando de briguentos.

Ele era o morador mais antigo, ninguém o viu chegando, nem sabiam se teve mulher, se era viúvo. O sotaque estranho não se identificava a origem, e ele nunca explicou a nenhum, mas quando lhe perguntavam dizia ter nascido ali mesmo. Podia ser, mas não parecia ser.

Numa manhã saiu com seu cão, como de costume, mas não voltou. Nem no outro dia também.

--- Eu sabia! Alguma coisa errada tinha... - comentou seu vizinho do lado.

Um outro alguém também comentou que podia ser um foragido da Justiça.

---  Ele é velho, pode ter morrido na rua, isso acontece! -  disse a vizinha do térreo.

Uma semana depois...

--- E se voltou de madrugada e ninguém viu? Pode estar morto aí no apartamento...  - sugeriu o morador novo, que mal o conhecia.

Quando o policial arrombou a porta do apartamento, entraram todos - o apartamento estava absolutamente vazio e limpo, janelas fechadas, nenhuma cadeira, tapete ou copo. Ninguém viu mudança alguma, nem o velho saindo com alguma tralha além do cão.

--- Ninguém vai embora assim sem um até breve... -  todos querendo respostas.

--- Esse é um país livre, cada um vai quando e pra onde quiser... --- falou o delegado, irritado com aquela gente.

Parentes ele não tinha, e se ninguém da família faz um Boletim de Ocorrência do desaparecimento, a polícia não toma conhecimento.

--- E agora, como vai ficar o apartamento dele? .. Ou não é dele? - perguntou ao síndico, a Sra. do último andar..

--- É dele sim. -  disse o síndico, que ainda não sabia que naqueles dias o velho vendera, e que saiu do banco com uma mala de dinheiro, indo sabe-se lá pra onde com seu cão que nunca usou coleira.

Sobre seu paradeiro ninguém nunca soube, mas tampouco esqueceram a despedida que não teve, aquilo incomodava.

E mesmo muito tempo depois, com os mesmos genes encrenqueiros dos pais, os filhos crescidos continuavam inconformados com o velho que sem um até breve sumiu como veio, sem ninguém ver.

Se alguém achar que a história é chata, que não tem um final, eu respondo sem nenhuma aflição: tem sim, o inferno existe sem o demônio e é aqui mesmo, mas nem todo mundo se sente atraído.     

8 de jan. de 2014

O CÃO E A TARTARUGA


A tartaruga disse ao cãozinho que, se nada desse errado, seu destino era passar dos cem anos.

O cão ficou pasmo, pensativo, e perguntou:

– Mas por que queres viver tanto essa vida morna e sem graça?

De pronto ela respondeu:

– Não sou eu quem decide! Nasceste cão, eu, tartaruga, aquele ali, humano…

“Aquele ali” era eu experimentando uns fones de ouvido com uns chips chineses que garantiam a tradução dos sons dos animais em vários idiomas. Comprei a tramoia de um ambulante sem acreditar muito, curioso que sempre fui nesse assunto, mas não roubei nada da natureza.

O cãozinho nada satisfeito com o que ouviu, insistia:

– Não arriscas nada, vives neste pequeno espaço como se fosse o mundo!

A tartaruga falava muito baixo…

– É verdade que exploras cada cantinho desse quintal muito mais do que eu, mas também não vai além dos muros, e, mesmo quando foges, não se afasta mais que uns poucos quarteirões. O mundo, cãozinho, o mundo mesmo, é muitas vezes maior que isso…

– É mesmo? E como sabes se nunca saiu deste quadrado de cimento? - perguntou insistente o cãozinho.

– Imagino - disse a tartaruga. Imagino… Nunca olhaste de onde vem a chuva? Ou para aquelas luzinhas que desaparecem quando nasce o dia?

– Não - falou o cãozinho. Não enxergo muito bem de longe, mas escuto e sinto os cheiros como ninguém!

– Eu sei, é assim que descobres quando o gato está por perto ou o humano está chegando, e sabes exatamente qual comida te preparam sem vê-la, não?

– Isso…

– Vês, sem enxergar, através das paredes. - balbuciou a tartaruga com um certo quê de ironia, e continuou:  

--- Mas, se não podes ver o céu, não tem surpresa. Eu, que não tenho pressa, que não escuto muito nem sinto os cheiros, e tenho a vista cansada, vejo as estrelas mutantes e minha vida é repleta de novidades…

Era visível a irritação do cãozinho com o discurso da tartaruga...

– Põe a cabeça pra fora, cascuda! Que novidades... se nada acontece nessa vidinha parada?

Com a cabeça sob o casco… a tartaruga se estica por dentro, e diz:

– Eu, meu cãozinho… Se nada der errado, vou assistir tua velhice e ver o “humano” te enterrar no quintal. E repito, se nada der errado, também vou ver o humano envelhecer e morrer, quando mudarei de casa e viverei com outros humanos, que provavelmente terão outros cãezinhos, que continuarão fazendo as mesmas perguntas e insinuações…

– Prevês o futuro? - rangendo os dentes, o quatro-patas.

– Claro que não, só me baseio no que vi, nos outros cãezinhos que se foram antes de ti.

Quando o diálogo estava esquentando, a porra do fone de ouvido parou de funcionar. Corri pra casa, peguei a bateria da máquina fotográfica, nada. Desmontei a tramoia… O que tinha dentro? Nada. Procurei no Google onde comprar outra. Nada. No outro dia perguntei aos lojistas se sabiam quando aquele ambulante aparecia por ali, ninguém nunca o vira. 

Contei a minha mulher o que acontecera, achou que além de ser otário tinha endoidecido e caiu na gargalhada, que só não foi mais dolorido porque meu cãozinho, enchendo o saco da tartaruga, latia mais alto.

31 de dez. de 2013

O GRANDE MANICÔMIO

Pistas exclusivas para bikes, mega festas comemorativas para multidões em dias marcados no calendário, idéias públicas para pôr um tempero na vida insossa das grandes cidades.



No dia-a-dia são as calçadas esburacadas cheirando a tetra etila de chumbo, e os pequenos parques esmagados pelas edificações, os espaços onde celulares, e a parafernália eletrônica que se comunica sem se comunicar, passeiam com seus amos.



Quantos não chegam do trabalho exaustos e caem nos assentos em frente a TV, por falta de disposição ou por não se disporem arriscar a vida numa simples caminhada em seus quarteirões.



As grandes cidades engolem o homem porque não é ele a verdadeira razão do Estado, e não será urbanista, psicólogo, polícia ou político, que ajudará. O coração das metrópoles anda mal, as periferias se espalham como tinta derramada sobre um mapa, e nenhuma Lei que tenta organizar esse caos se sobrepõe ao que é regido pelo poder econômico. 



Entre muitas outras coisas, seria mais humano se abrissem clareiras no concreto. Ali mesmo, em muitas partes de qualquer cidade, há espaços cercados à espera de valorização, que o Estado poderia transformá-lo em algo útil à maioria. Poderia, mas não sem as eternas discussões sobre as prioridades do orçamento público, que ao Estado endividado a utopia da transformação não vai nunca além do básico.



E o tal espaço interessante morre antes de nascer. Ninguém viu começar e já temos mais um conjunto de edifícios ou um shopping center no lugar. O planejamento público está sempre atrasado nas soluções dos mega-problemas, corrida perdida se os rumos do desenvolvimento não forem mudados. Isso é válido para todos os cantos, agravado com a pobreza.



E o grande canteiro de obras que são as metrópoles é mais que a geração de empregos ou solução verdadeira para o homem, é uma fábrica de problemas - o medo associado à crescente violência, a insatisfação geral com o caos na movimentação urbana, e tudo aquilo que qualquer um de nós sabe enumerar, fere a cidadania.



E a 'maioria da minoria' encontra na falta de uma boa educação ou nos políticos, a razão de todo o mal. Políticos são mesmo culpados, e educação de qualidade pra todos não existe, ninguém está errado. Mas o que mais pesa nessa balança é a falta de caráter dos que não estão nem aí com nada, que conscientemente ou não, usam o sufrágio para eleger o que há de mais pernicioso ao país, fazendo com que o sistema sofra de uma doença sistêmica à mercê do poder econômico, chaga que não vem do mosquito!



Eu não gosto dessa doença que lesa a pátria, e tampouco sei lidar com esse mosquito que não é um mosquito! Então dispenso a realidade dos insanos, e sonho com um outro tempo, sem cenários com arco-íris ou gente sorrindo sem motivo, sem religião, partidos políticos, mas com o que importa, o remédio simples pra extinguir a doença sistêmica.



Espontaneamente e sem lideranças, de cada cidade, de toda cidade... empresários, pensadores, professores, governantes, os que plantam e colhem com as mãos, os que varrem as ruas... todos reunidos numa mesa deca métrica, refletindo sobre uma única questão, iniciada por "Nós herdamos essa merda e somos responsáveis por isso...".

23 de dez. de 2013

Frederica, e deus e o diabo na terra do sol.

"Que dia infernal, hoje deu tudo errado...". - disse a senhora de meia idade ao menino do seu lado.


"Isso aqui está um inferno". – falou o cobrador, com a gravata toda amarfalhada, a um passageiro que entalou na catraca.


Parecia mais um formigueiro aquele amontoado de gente, nenhuma ideia pode ser concatenada com tantos cheiros, ruídos, caras de "soutine", mas fiquei divagando sobre o porquê de se falar tanto no inferno num dia ruim ou muito quente, e quase nada sobre o céu num momento agradável ou de boa sorte.


Passou dos trinta graus logo se tem em mente uma coca-cola, cerveja bem gelada ou algo de Lúcifer. Estranho que as labaredas flamejantes são o antagônico modelo do cálido azul do paraíso, que ninguém cita nos dias bons.Do paraíso fresquinho das terras etéreas do Senhor, só vez por outra, depois de uma delícia qualquer, escuta-se que 'aquilo é dos deuses', ainda assim só uma referência aos deuses pagãos, e não passa disso. Agora, uma coisa é certa, quem fica bravo à toa, fala alto como os trovões, talha pedra com fogo, isso lá é coisa do divino; ao contrário, o capeta é mudo ou muito educado.


O ônibus freiou de uma vez e só não caiu todo mundo porque não se podia cair, lotado que estava. Na hora pensei na Frederica, a indiazinha que está hospedada em casa - ela não ia entender isso. A pequena veio à cidade por estar no programa de reciclagem cultural criado pela Fundação de Amparo ao Índio pra facilitar a ocupação das terras dos seus parentes.


Frederica...? Como puderam dar um nome desses a uma aborígene? Mas é o que menos importa, pra ela complicado são as aulas de catecismo, que não está compreendendo direito e me faz perguntas, que tampouco sei responder. Queria poder lhe explicar essa história do bem e do mal, mas confesso que não sei por onde começar... e minha cabeça estourando com o calor e aquelas falas sobre as más sortes, citando o inferno a cada instante...


Vozes se misturavam aos braços, coxas, cabelos... nem sei como fui lembrar que aprendi com as freiras do colégio, que ao inferno vão as crianças más e desobedientes, os inconformados, os ladrões, enquanto o céu recebe os que pautaram por uma existência comedida e sem sobressaltos, enfim, os que transbordam de amor. Assim me ensinou o catecismo nas suas primeiras lições, mas nem é preciso ser um estudioso do assunto pra perceber que essa espécie de guerra fria só não passa na TV porque todo curioso que se atreveu conhecer não voltou.


Dúvidas, quem não as tem? Se a ciência  já desvendou com o mapa genético os mistérios do corpo, da alma nada se sabe, muito menos onde se traça o destino dos recém-nascidos. Parece que ali tem uma mãozinha de Jeová e outra de Lúcifer, como se na calada da noite trabalhassem juntos, porque no corpinho do bebê vem grudada a etiqueta, que diz o quanto terá de alegria, de saúde, de doença, de tristeza... Por que o bom deus faria parte desse desastre? Cruz credo!


Não obstante, ao menos em pensamento, a maioria esmagadora dos humanos prefere gozar suas férias prolongadas e obrigatórias nos primaveris campos do éter a arder nas fictícias fogueiras das entranhas da terra. Mas fora as especulações metafísicas, nada se sabe de concreto sobre esses misteriosos czares, se há patrulhamento ideológico pelo grau de bondade ou maldade, nem quantas Chinas haveria nesses mundos, só há pura especulação.


Há quem pense que o ingresso ao céu pode ser adquirido matando em nome de deus. Se assim é, imagino um fim de tarde com as beatas de Santa Catarina tomando ar fresco numa animada conversa com os integrantes do Talibã. Argh... Seria deus psicótico, com múltipla personalidade? Como poderia receber de braços abertos um Pen Xin Xong, um Padre Pio, as crianças ortodoxas russas e seus algozes muçulmanos chechenos?


Sei não! Dizem que o inferno hospeda Galileu, Da Vinci, Giordano Bruno; mas se as tais fogueiras queimassem mesmo como as daqui, o inferno seria um 'não lugar' onde só haveria cinzas, e o diabo seria um joão-carvão qualquer, não um cidadão de primeira classe como é tratado nas Assembleias de Deus.


Depois, Dante fez menção a um inferno gelado...  isso é muito confuso. Às vezes penso que marqueteiro sempre existiu, não é privilégio de político, e aqueles da Galileia podem ter invertido a ordem das coisas, fazendo com que todo inconformado com o mal, fossem os maus, e povoaram o inferno com as crianças rebeldes, os pensadores, os ateus, os verdadeiros artistas; no céu hospedaram só os devotos. 


Lá estou eu blasfemando de novo! Droga, acho que o calor no ônibus está me fazendo delirar. 


Arre, desci! Sopra uma brisa suave na calçada, estou chegando em casa. Da esquina vejo Frederica na sua inocência, pulando feliz em frente ao meu portão.Melhor deixar esses pensamentos pra lá, quando ela crescer certamente saberá resolver isso melhor do que eu. Por hora, transborda de alegria e nem desconfia que está perdendo sua história com uma canetada de gabinete. Melhor assim, nem o relógio, nem a Terra vão mesmo girar ao contrário, e sem infâmias ela ainda seguirá criança por algum tempo.

19 de dez. de 2013

CHAMAVA MATILDE

--- Sabe, Zé, tô cheia dessa vida, tô pensando em a gente se divorciar.
--- Cê que sabe, Matilde, se é o quer mesmo...

--- Pra você tanto faz, né Zé? Pra você, eu e ninguém é a mesma coisa.
--- Isso não. Já passamos por muitas, nunca pensei assim... Depois, e a viagem que a gente ia fazer, como fica?

--- Viagem? Que viagem?
--- Esqueceu que combinamos ir ao Paraguai?

--- Zé, tô com fome, cê não me entende...
--- Quer um café?

--- Tô dizendo, Zé, cê não me entende mesmo, tô com fome, tô com frio, tô cansada!
--- Cê tá deprê, Matilde, isso passa, uma hora tudo passa.

--- Sei não... e essa viagem nunca vai ser...
--- Cê acha mesmo, Matilde? Cê pensa que sou de desistir?

--- Zé, ouve... a gente fala disso desde que se conheceu.
--- Pra ir lá a gente só tem que comprar umas roupas...

--- É, né, Zé, e desde quando a gente não compra umas roupas?
--- Por isso, Matilde, que a gente ainda não foi, mas o Paraguai tá lá, nós tamos aqui, uma hora a gente vai, e lá é quente, nem casaco precisa.

--- Tô com frio, Zé!
--- Com fome e com frio, e ainda pensando em se divorciar... cê tá mesmo fodida, Matilde, tenta se concentrar numa coisa boa... Lembra quando a gente foi no mar?

--- Ah, Zé, sempre cê vem com essa história do mar... nem lembro mais quanto tempo faz que a gente pisou no mar.
--- Matilde, presta atenção! Já num falei um monte de vezes que a gente não pisa no mar...

--- Falou sim, Zé, umas mil vezes, cê é um chato, e egoísta.
--- Egoísta num sou, e o que é certo é certo, Matilde.

--- Então me leva num restaurante, que eu tô com fome!
--- Olha tua cara no espelho... passa um pente nesse cabelo!

--- Vai me levar? Assim, sem banho, Zé?
--- Sem banho. 

--- Vai me levar mesmo?
--- Quanto cê tem aí, Matilde?

Fazia frio e caía uma chuva fina quando meu ônibus chegou. Da janela vi o casal de mendigos se levantando, pondo coisas numa sacola até desaparecer da minha vista quando o ônibus fez a primeira curva.

8 de nov. de 2013

ARQUITETURA E OS ARQUITETOS

Na atualidade só há três tipos de arquitetos:
-- Os que fazem os megaprojetos cheios de tecnologia, que enchem as mídias e encantam o mundo, quase sempre financiados pelo dinheiro público ou de algum esdrúxulo magnata.
-- Os que, funcionários de grandes escritórios projetam edifícios comportados para incorporadoras, e vez por outra enfiam umas firulas e brilhos, que os tornam super-originais, iguaizinhos à maioria.
--  Por fim, habilidosos ou não, criativos ou não, talentosos ou não... os demais, a maioria da multidão que escolheu como profissão a arquitetura.

Que se empregados na área pública, passam a vida fazendo nada, caso sejam café-pequeno; ou, se chefes, pondo e tirando o paletó da cadeira.
Que se empregados na área privada vivem fazendo o que não desejam.
Por fim, os autônomos, estes que se esforçam para serem percebidos, mas limitados pela timidez dos investimentos resignam-se às pequenas obras, e não raras vezes ficam nos sonhos dos rascunhos ou maquetes.

Claro que nada disso é exato, nem há nenhuma novidade, com a medicina, p.ex. é mais ou menos a mesma coisa, onde os expoentes não saem da mídia, mas o restante ou é empregado dos Planos de Saúde ou servidor público.

Mas há diferenças - arquitetura nem salva, nem mata! É desafio, arte que envolve literalmente o ser humano, e não creio que alguém que tenha escolhido esta profissão, cuja característica principal não é a repetição, se sinta equilibrado fazendo nada, ainda que esse nada não seja verdadeira e exatamente o vazio.

"Vai construir? Comprou uma casa velha, um apartamento caindo aos pedaços... consulte sempre um arquiteto!" Li isso em algum lugar que não era o para-choque de um caminhão, talvez no vidro traseiro de quem andava na minha frente, não lembro e não importa, aviso inútil que não muda nenhum destino. Por que? Ora...

Por que vou gastar uma grana se eu posso fazer sozinho?
Ops, eu tenho um amigo que é engenheiro e pode dar uma olhada...
Minha prima já mexeu com obra, ela leva jeito...
Nem morto! Na última vez que usei um arquiteto quase saímos no tapa...
Jo soy un arquitecto nacido...

Se os autônomos escapam disso, dão graças aos céus que têm algo pra fazer, mesmo que esse algo seja um quase nada em arquitetura, e poderão dar de comer aos seus cães ou filhos, caso os tenham, 

Dia desses conversei por telefone com um sujeito que vendia tumbas... Ops, tumbas!? Mais ou menos isso, ele vendia espaços, coordenadas de um novo cemitério.

Falei que deixei uma ordem para ser cremado, que só ia precisar de uma urna, e temporária. Ele riu e disse que urna ele não vendia. Nem vi a cara do sujeito, mas era um tipo simpaticíssimo, e falamos sobre outras coisas até ele dizer que era um corretor da morte, mas pra eu não confundir com 'corretor de morte', que era arquiteto e cansou de não fazer nada durante anos numa construtora, quando tomou a decisão de fazer alguma coisa útil.


16 de out. de 2013

ARQUITETURA DA MISÉRIA



Costa Amalfitana, estradinha para Vítrio, encosta apinhada de pequenas casas e pés de limão, uma das paragens mais lindas do mundo.Campo Limpo em São Paulo, estrada de M´Boi Mirim, amontoado de pequenas casas cinza, cor da miséria, uma das paragens mais horríveis do mundo.


Com a sensibilidade que vai além da visão embotada pelo preconceito, e sem o sincretismo simplório que mistura tudo, a arquitetura da miséria tem lá suas semelhanças com a Costa Amalfitana. Como aquela, também não segue as normas fixadas pelos doutos que criam os parâmetros do urbanismo. É anárquica em todos os sentidos, porque também não segue as regras formais da construção. Nasce de umas conversas, uns riscos no chão, e sobe rápido porque é simples - tudo perfeitamente de acordo com um único parâmetro - a necessidade e a falta de grana.


Ao contrário da arquitetura formal, em que o engenheiro e o arquiteto, além, claro, do proprietário, quebram a cabeça pra criarem um dormitório a mais, levando em conta os acessos, as leis etc., a arquitetura da miséria é extremamente dinâmica, quase uma “obra aberta”, modifica-se rapidamente a cada novo rebento.


Houvesse uma palavra que definisse esse estilo sem estilo, poderia ser a “arquitetura do puxadinho”. Não dá certo escada por dentro, atrapalha o espaço da TV? Sem problemas... escada pra fora. Ah... chove quando sobe? Sem problemas... outro “puxadinho”.Mais original que as obras da realeza, esse conjunto cinza de blocos de cimento sem acabamento e telhas de fibro-cimento, sem detalhes, que sobe e desce montanhas, é horrível no seu todo não por falta de criatividade, falta uns toques, falta cor!


Imagino se em vez de se colocar tapumes nas avenidas pra esconder os “puxadinhos”, como fez o Lacerda no Rio de Janeiro em certa ocasião, o Estado transferisse recursos inúteis gastos com a existência, por exemplo, do Senado, dispensável na maioria das democracias. Ou das estradas, viadutos, açudes que nunca existiram. Ou os bancos resolvessem deixar de ser tão "unhas de fome" e fizessem um esforcinho...


Imaginem todos os milhares de “puxadinhos” do país com paredes rebocadas e pintadas com a cor da vontade de cada um... Teríamos uma estética anárquica, que fugiria da mesmice, que, dado as proporções, seria única no mundo.


Cor é alegria, bem-estar, transforma as pessoas, e isso não é uma gozação, muito menos uma piração, mas alguém vai dizer que é tampar o sol com a peneira, que o problema é muito mais embaixo num país onde falta tudo, como se eu não soubesse.

Obviamente que num Estado de parlamentares e governantes meias-bocas estejamos muito longe de substituir os "puxadinhos" por algo mais digno. Não obstante há leis de incentivo à cultura, museus, estátuas em praças públicas - o que é esse esforço estético se não para o deleite da alma humana? Então, por que não, além de melhorar a segurança destas cidades dentro das cidades, também colorir e dar vida aos "puxadinhos"?