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28 de set. de 2016

Esperanza

Não se encontra na razão toda a explicação do desejo, mas agregado à alma a poeira das estradas, como as estrelas, transformam a maneira de ver o outro.

Era um fim de outono, dez da noite, último dia do ano, a Ruta 3 deserta. O sol enorme e vermelho do poente não permitia focar à distância uma mancha escura, que podia ser uma ave ou um cão.

Depois de uma hora de caminhada - nem era um cão, nem uma ave, mas a traseira de um automóvel preto parado no meio da pista. E aquele não era um solitário carro quebrado, só o último de uma fila de exatos vinte e seis, e todos vazios.

Naquele momento um estranho sibilo metálico se misturava às rajadas de vento, mas no entorno não havia nada, quando toca a campainha de um celular sobre o painel de um dos carros. Hesitei em atender, mas aquilo insistia tanto que acabei pondo o sujeito no ouvido. E alguém ouviu o meu “alô” com um suspiro, e foi só e tudo o que me foi permitido, não entendi nenhuma palavra até o aparelhinho se calar por conta própria.

O céu escureceu de vez. E se a noite nunca atrasa, aquela veio na hora e com chuva torrencial. Não ia mesmo chegar a lugar algum com tanta água, que me acomodei no banco traseiro daquele carro.

Com o barulho dos trovões o estranho ruído desapareceu. Ou, se, exaurido, embarquei rápido para algum lugar num outro mundo, que não percebi nada até abrir os olhos na primeira manhã do ano seguinte.

O céu era todo anil, o sibilo voltou mais forte, e não havia mais nenhum carro além do que eu estava. Pensei em anotar a placa, que chegando ao vilarejo talvez alguém de lá pudesse me explicar o que acontecia, mas o carro não tinha placa. E se no meu mapa dizia que faltavam só alguns quilômetros, certeza que andei muito mais, e o tal ruído só se calou quando cheguei ao único posto de combustível da região, na entrada da pequena comunidade conhecida como Esperanza, que não tinha mais do que trinta habitantes.   

Mas não havia ninguém no posto, nem na hospedaria.

A estalagem tinha as portas escancaradas. Bati palmas, assobiei, cansei de chamar por alguém. Esperanza fora abandonada. Sobre o balcão do refeitório, uma cesta com pão amanhecido e um café frio numa garrafa térmica. Peguei emprestado um pão e sentei junto a uma mesa próximo à janela.

Estendi meu mapa, a próxima vila era muito distante e voltar também não era pouco. Absorto, olhando a ventania de areia pela vidraça, como uma pipa sem rumo num vento louco um menino ziguezagueava com a mão nos olhos. Larguei tudo na mesa e corri em sua direção. Ele agarrou minhas pernas chorando muito. Abracei-o e entrei com ele na estalagem.  

--- Como se chama? – perguntei.  
--- Juan – disse, soluçando. 

--- Que foi, Juan, que está acontecendo aqui? – passando a mão nos seus cabelos tentando acalmá-lo.
--- Eu moro com minha avó, foi ontem de manhã. Ela viu da janela uns caminhões grandes e uns homens de uniforme, mandou eu ficar quieto, que ia ver o que era aquilo, e não voltou.

--- E seus pais?
--- Não tenho pai, sou cego, minha mãe mora em outra cidade. Ontem, enquanto esperava pela minha avó, ouvi gente gritando e chorando, o barulho alto dos motores dos caminhões, fiquei com medo e me escondi, quando entraram em casa não me acharam.

Juan tinha a pele clara, cabelos quase brancos, olhos azuis como de uma pintura, e talvez uns dez anos, e assim que se acalmou, me perguntou onde estava sua avó e quem eu era.

Não pude lhe responder com a precisão que certamente desejava, mas disse se quisesse encontrar sua avó teria que vir comigo e andar uns três dias (na hora decidi voltar), e perguntei se tinha alguma comida na sua casa.

Quase não tinha nada, peguei algumas poucas coisas, um cobertor, uma garrafa de água, e saímos rápido dali, mas me perguntei como alguém podia morar naquele casebre sem calefação, quando no inverno Esperanza tem temperaturas abaixo dos trinta graus? Em Três Cerros é a única referência humana em centenas de quilômetros, com sua hospedaria aquecida e o posto de combustível.

Apesar de não enxergar Juan tinha algum sentido que desconheço. Me acompanhava sem tropeçar, não reclamava nem fazia perguntas. As que eu lhe fiz não sabia responder, mas lembrou que há algum tempo, desde que surgiu no campo aquele estranho ruído metálico, não se podia mais beber a água que vinha do rio, e que sua avó tinha uma vaca e umas galinhas, que foram ficando magrinhas e acabaram morrendo.

Fiquei pensando no que disse. E se enquanto tinha sol, apesar do vento, ainda fazia algum calor, à noite a temperatura caía a uns três ou quatro graus, O dia se fora, e antes do breu total me afastei da pista, cortei uma touceira de capim e fiz ele deitar e se enrolar no cobertor. Dormiu na hora. Rezei para não chover, só tínha um abrigo de chuva.

Dia seguinte, outra vez sem cruzar com uma única alma, andamos umas dez horas até desaparecer da vista a imagem dos Três Cerros (o acidente geográfico que consta dos mapas ingleses desde o Sec. XVI). Descansamos e comemos um pouco antes de seguir. Se aguentássemos a jornada dormiríamos mais uma noite e chegaríamos a Jaramillo no fim do outro dia.

Anos atrás estivera naquelas paragens, mas desta vez, apesar da sempiterna devastadora solidão do deserto, havia alguma coisa muito errada com aquele lugar, nada ali se movia além do vento.

Acordamos cedo na manhã seguinte e andamos novamente o dia todo, eu estava exausto. Apesar da aparência frágil, ele era selvagem, acostumado a coisas inverossímeis, e não demonstrava cansaço, nem aborrecimento, quando no começo da noite, enfim, chegamos a Jaramillo.

Uma semana sem ver ninguém, a primeira coisa que fiz foi entrar com ele numa lanchonete. Juan parecia feliz em ouvir a voz de pessoas, e enquanto comia me perguntou sobre sua avó. O que podia fazer se não levá-lo a uma delegacia de polícia e relatar tudo o que vi e senti?

--- Esperanza? Esse lugar não existe, nunca existiu! De onde você é? – me perguntou o policial.

Tentei argumentar que conhecia aquele lugar, que já estivera lá num inverno. Ele me disse que estava sonhando, que era melhor pra mim esquecer tudo aquilo e ir embora, que eles já tinham problemas demais na região.

Quando se assegurou que Juan era cego mesmo, disse que o levaria para sua casa aquela noite, que no dia seguinte o encaminharia para uma tal Fundação do Menor, e que iam procurar o paradeiro da sua avó.

Naquela mesma noite consegui uma carona de um funcionário da estatal petrolífera, mas tudo que lhe perguntei ficou no ar, ele não falava nada sobre o assunto. De madrugada cheguei a Rawson, daí o reencontro com a civilização.

Foi a última vez que estive por lá, mas não estava sonhando, aqueles automóveis sumiram enquanto dormia. E como esquecer daquele menino? Tampouco soube o que fizeram com aquelas pessoas.

Pela descrição de Juan - água contaminada, os animais da avó que definharam, a gritaria, homens de uniforme e o barulho dos caminhões, tenho a impressão que foi o exército que retirou às pressas os moradores de Esperanza e isolou aquela área.

Não há verdade que não se duvide, mas exatamente naquelas coordenadas (latitude 48º 07´- longitude 67º 38´), concentra-se o maior buraco de ozônio do planeta. 




27 de jul. de 2014

"LINCOLN" - O FILME

A festa americana da indústria cinematográfica de 2013 foi como um juiz que estragou a partida de futebol. Django Livre e Lincoln são os que vão ficar na memória, os que valem à pena, mas quem venceu a maioria das indicações foi A História de PI, filme quase ridículo, que combina bem com os cinemas dos shoppings, e em 2014 não foi diferente - "Gravidade" levou quase tudo e não vai sobrar nada, porque não tem nada; enquanto "Blue Jasmine" mostrou com rara sensibilidade o que certamente não agrada à maioria - o  real.

Sobre "Lincoln", duas considerações - primeiro, a figura do ex presidente; depois, o filme propriamente dito.Por se tratar de tema documental, difícil separar a história da película. Obviamente não cabem em duas horas a vida de ninguém, e o que se escolheu, aos olhos dos que escreveram e roteirizaram, são os momentos mais marcantes de uma certa época.


Baseado no equilíbrio emocional e perseverança do presidente na luta pela abolição da escravatura, diante da rejeição de metade da população e seus representantes políticos, das milhares de mortes causadas pela Guerra  da Secessão, da vida familiar difícil, o filme mostra basicamente a luta não a qualquer preço, mas com algum preço, a complicada "compra de votos" de alguns poucos democratas para se alcançar o quorum necessário à aprovação pelos deputados da emenda constitucional.

Lincoln usou politicamente a guerra civil para atingir seu objetivo, mas nunca desejou nenhum tipo de retalhação aos perdedores. A não violência de Ghandi, para atingir seu objetivo, também fez milhares de mortes (No Mito da Caverna, onde todos só sabiam o mundo pelas sombras, o que se aventurou sair, foi morto quando ao retornar contou como era o mundo real). 


Líderes verdadeiros tem muitos seguidores e inimigos, e não ficam em cima de muros. Ambos foram assassinados quase da mesma forma.Se alguém  achou "Lincoln" chato e cansativo, compreendo e dou até razão por conter diálogos e particularidades dos meandros políticos a quem não se interessa nem conhece o mínimo. 


No entanto, se  alguém encontrou um paralelo com o "mensalão brasileiro" (a compra de votos do governo, para ter a maioria dos deputados na reeleição do presidente, e consequentemente o apoio nos futuros atos), só sinto muito.


Daniel Day- Lewis leva o filme com a precisão possível, com sua voz baixa tal qual a do ex presidente, e em alguns momentos tem-se a impressão que voltamos no tempo e assistimos não a um filme, mas o dia-a-dia de Lincoln, mérito de quem sabe fazer filmes como Spielberg. 

25 de dez. de 2013

O GOL MAIS BONITO DO MUNDO

França, depois Suécia, e o Brasil foi campeão do mundo em 58. Era bem pequeno, mas nunca esqueci os rostos daquelas pessoas, que ouviam os auto-falantes e acompanhavam o jogo pela movimentação das luzinhas no painel gigante montado na Pça da Sé.
Sem ver o campo e os jogadores, o rádio é quem dava corda à imaginação. A Europa, com a ajuda do Sputinik , pôde ver os jogos ao vivo, quando se iniciou uma nova era nas telecomunicações.
Filmados em 16mm e vendidos para as televisões da América, os jogos e reportagens puderam ser vistos aqui depois da conquista. Lembro que a seleção Argentina teve uma derrota humilhante e foi recebida com uma chuva de moedas quando chegou.Nesse momento, um garoto chamado Pelé nasceu pro mundo, e foi, seguramente, o brasileiro mais conhecido em todos os continentes.
Quase quarenta anos passados vi na TV grega, na entrada do noticiário do horário nobre, imagens dele numa jogada rara que não resultou em gol, quando engana Mazurquievski, goleiro do Uruguai da copa de 70. Por que alguém repetiria todos os dias, pra milhões, um lance onde o jogador chuta a bola fora? Só quem tem paixão pelo futebol pode entender isso.
Mas não sei como nasce essa paixão, mesmo quando uma família inteira não se interessa.Com menos de dez anos, no campo dos bois, na Moóca, dia de semana à tarde, eu pensava que jogava futebol com os amigos da escola. Nós amávamos aquilo apesar de nos sentirmos minúsculos. Lá dentro tudo era gigante - bola, trave, a distância entre os goleiros, muito diferente de ver de fora o mesmo campo aos domingos, quando jogava o meu time do coração, Pascoal Moreira, com a camisa que na época lembrava a do Benfica.
Nunca fora a um estádio e pra mim aquele era o melhor time do mundo. Não perdia nenhum jogo, nem com chuva. E foi com chuva que vi o mais fantástico e inusitado gol da minha vida inteira. Puskas, Pelé, Garrincha, Messi, ninguém fez nada parecido, e vez por outra aquela imagem que nenhuma câmera registrou, que debaixo de um aguaceiro pouquíssima gente viu, me vem à cabeça.
Por acaso, quando li esta semana que morreu em 2005 aos 61 anos de idade, o Pelé loiro, meu ídolo da infância, lembrei esse que matou a bola no peito dentro da área, pôs no chão, e, ainda quicando, deu quatro chapéus seguidos em dois zagueiros antes de marcar num chute simples, rasteiro, sem defesa.
Descendente de polonês, com dezesseis anos teria também encantado o mundo se o vissem naquela época, mas o destino não é igual pra ninguém. Era um pessoa ótima, e foi um bom jogador quando se profissionalizou, mas não muito mais que isso nos dez anos que vestiu a camisa do Coritiba pelo campeonato brasileiro,  Kosilek ele se chamava.

23 de dez. de 2013

Frederica, e deus e o diabo na terra do sol.

"Que dia infernal, hoje deu tudo errado...". - disse a senhora de meia idade ao menino do seu lado.


"Isso aqui está um inferno". – falou o cobrador, com a gravata toda amarfalhada, a um passageiro que entalou na catraca.


Parecia mais um formigueiro aquele amontoado de gente, nenhuma ideia pode ser concatenada com tantos cheiros, ruídos, caras de "soutine", mas fiquei divagando sobre o porquê de se falar tanto no inferno num dia ruim ou muito quente, e quase nada sobre o céu num momento agradável ou de boa sorte.


Passou dos trinta graus logo se tem em mente uma coca-cola, cerveja bem gelada ou algo de Lúcifer. Estranho que as labaredas flamejantes são o antagônico modelo do cálido azul do paraíso, que ninguém cita nos dias bons.Do paraíso fresquinho das terras etéreas do Senhor, só vez por outra, depois de uma delícia qualquer, escuta-se que 'aquilo é dos deuses', ainda assim só uma referência aos deuses pagãos, e não passa disso. Agora, uma coisa é certa, quem fica bravo à toa, fala alto como os trovões, talha pedra com fogo, isso lá é coisa do divino; ao contrário, o capeta é mudo ou muito educado.


O ônibus freiou de uma vez e só não caiu todo mundo porque não se podia cair, lotado que estava. Na hora pensei na Frederica, a indiazinha que está hospedada em casa - ela não ia entender isso. A pequena veio à cidade por estar no programa de reciclagem cultural criado pela Fundação de Amparo ao Índio pra facilitar a ocupação das terras dos seus parentes.


Frederica...? Como puderam dar um nome desses a uma aborígene? Mas é o que menos importa, pra ela complicado são as aulas de catecismo, que não está compreendendo direito e me faz perguntas, que tampouco sei responder. Queria poder lhe explicar essa história do bem e do mal, mas confesso que não sei por onde começar... e minha cabeça estourando com o calor e aquelas falas sobre as más sortes, citando o inferno a cada instante...


Vozes se misturavam aos braços, coxas, cabelos... nem sei como fui lembrar que aprendi com as freiras do colégio, que ao inferno vão as crianças más e desobedientes, os inconformados, os ladrões, enquanto o céu recebe os que pautaram por uma existência comedida e sem sobressaltos, enfim, os que transbordam de amor. Assim me ensinou o catecismo nas suas primeiras lições, mas nem é preciso ser um estudioso do assunto pra perceber que essa espécie de guerra fria só não passa na TV porque todo curioso que se atreveu conhecer não voltou.


Dúvidas, quem não as tem? Se a ciência  já desvendou com o mapa genético os mistérios do corpo, da alma nada se sabe, muito menos onde se traça o destino dos recém-nascidos. Parece que ali tem uma mãozinha de Jeová e outra de Lúcifer, como se na calada da noite trabalhassem juntos, porque no corpinho do bebê vem grudada a etiqueta, que diz o quanto terá de alegria, de saúde, de doença, de tristeza... Por que o bom deus faria parte desse desastre? Cruz credo!


Não obstante, ao menos em pensamento, a maioria esmagadora dos humanos prefere gozar suas férias prolongadas e obrigatórias nos primaveris campos do éter a arder nas fictícias fogueiras das entranhas da terra. Mas fora as especulações metafísicas, nada se sabe de concreto sobre esses misteriosos czares, se há patrulhamento ideológico pelo grau de bondade ou maldade, nem quantas Chinas haveria nesses mundos, só há pura especulação.


Há quem pense que o ingresso ao céu pode ser adquirido matando em nome de deus. Se assim é, imagino um fim de tarde com as beatas de Santa Catarina tomando ar fresco numa animada conversa com os integrantes do Talibã. Argh... Seria deus psicótico, com múltipla personalidade? Como poderia receber de braços abertos um Pen Xin Xong, um Padre Pio, as crianças ortodoxas russas e seus algozes muçulmanos chechenos?


Sei não! Dizem que o inferno hospeda Galileu, Da Vinci, Giordano Bruno; mas se as tais fogueiras queimassem mesmo como as daqui, o inferno seria um 'não lugar' onde só haveria cinzas, e o diabo seria um joão-carvão qualquer, não um cidadão de primeira classe como é tratado nas Assembleias de Deus.


Depois, Dante fez menção a um inferno gelado...  isso é muito confuso. Às vezes penso que marqueteiro sempre existiu, não é privilégio de político, e aqueles da Galileia podem ter invertido a ordem das coisas, fazendo com que todo inconformado com o mal, fossem os maus, e povoaram o inferno com as crianças rebeldes, os pensadores, os ateus, os verdadeiros artistas; no céu hospedaram só os devotos. 


Lá estou eu blasfemando de novo! Droga, acho que o calor no ônibus está me fazendo delirar. 


Arre, desci! Sopra uma brisa suave na calçada, estou chegando em casa. Da esquina vejo Frederica na sua inocência, pulando feliz em frente ao meu portão.Melhor deixar esses pensamentos pra lá, quando ela crescer certamente saberá resolver isso melhor do que eu. Por hora, transborda de alegria e nem desconfia que está perdendo sua história com uma canetada de gabinete. Melhor assim, nem o relógio, nem a Terra vão mesmo girar ao contrário, e sem infâmias ela ainda seguirá criança por algum tempo.

19 de dez. de 2013

CHAMAVA MATILDE

--- Sabe, Zé, tô cheia dessa vida, tô pensando em a gente se divorciar.
--- Cê que sabe, Matilde, se é o quer mesmo...

--- Pra você tanto faz, né Zé? Pra você, eu e ninguém é a mesma coisa.
--- Isso não. Já passamos por muitas, nunca pensei assim... Depois, e a viagem que a gente ia fazer, como fica?

--- Viagem? Que viagem?
--- Esqueceu que combinamos ir ao Paraguai?

--- Zé, tô com fome, cê não me entende...
--- Quer um café?

--- Tô dizendo, Zé, cê não me entende mesmo, tô com fome, tô com frio, tô cansada!
--- Cê tá deprê, Matilde, isso passa, uma hora tudo passa.

--- Sei não... e essa viagem nunca vai ser...
--- Cê acha mesmo, Matilde? Cê pensa que sou de desistir?

--- Zé, ouve... a gente fala disso desde que se conheceu.
--- Pra ir lá a gente só tem que comprar umas roupas...

--- É, né, Zé, e desde quando a gente não compra umas roupas?
--- Por isso, Matilde, que a gente ainda não foi, mas o Paraguai tá lá, nós tamos aqui, uma hora a gente vai, e lá é quente, nem casaco precisa.

--- Tô com frio, Zé!
--- Com fome e com frio, e ainda pensando em se divorciar... cê tá mesmo fodida, Matilde, tenta se concentrar numa coisa boa... Lembra quando a gente foi no mar?

--- Ah, Zé, sempre cê vem com essa história do mar... nem lembro mais quanto tempo faz que a gente pisou no mar.
--- Matilde, presta atenção! Já num falei um monte de vezes que a gente não pisa no mar...

--- Falou sim, Zé, umas mil vezes, cê é um chato, e egoísta.
--- Egoísta num sou, e o que é certo é certo, Matilde.

--- Então me leva num restaurante, que eu tô com fome!
--- Olha tua cara no espelho... passa um pente nesse cabelo!

--- Vai me levar? Assim, sem banho, Zé?
--- Sem banho. 

--- Vai me levar mesmo?
--- Quanto cê tem aí, Matilde?

Fazia frio e caía uma chuva fina quando meu ônibus chegou. Da janela vi o casal de mendigos se levantando, pondo coisas numa sacola até desaparecer da minha vista quando o ônibus fez a primeira curva.

8 de nov. de 2013

ARQUITETURA E OS ARQUITETOS

Na atualidade só há três tipos de arquitetos:
-- Os que fazem os megaprojetos cheios de tecnologia, que enchem as mídias e encantam o mundo, quase sempre financiados pelo dinheiro público ou de algum esdrúxulo magnata.
-- Os que, funcionários de grandes escritórios projetam edifícios comportados para incorporadoras, e vez por outra enfiam umas firulas e brilhos, que os tornam super-originais, iguaizinhos à maioria.
--  Por fim, habilidosos ou não, criativos ou não, talentosos ou não... os demais, a maioria da multidão que escolheu como profissão a arquitetura.

Que se empregados na área pública, passam a vida fazendo nada, caso sejam café-pequeno; ou, se chefes, pondo e tirando o paletó da cadeira.
Que se empregados na área privada vivem fazendo o que não desejam.
Por fim, os autônomos, estes que se esforçam para serem percebidos, mas limitados pela timidez dos investimentos resignam-se às pequenas obras, e não raras vezes ficam nos sonhos dos rascunhos ou maquetes.

Claro que nada disso é exato, nem há nenhuma novidade, com a medicina, p.ex. é mais ou menos a mesma coisa, onde os expoentes não saem da mídia, mas o restante ou é empregado dos Planos de Saúde ou servidor público.

Mas há diferenças - arquitetura nem salva, nem mata! É desafio, arte que envolve literalmente o ser humano, e não creio que alguém que tenha escolhido esta profissão, cuja característica principal não é a repetição, se sinta equilibrado fazendo nada, ainda que esse nada não seja verdadeira e exatamente o vazio.

"Vai construir? Comprou uma casa velha, um apartamento caindo aos pedaços... consulte sempre um arquiteto!" Li isso em algum lugar que não era o para-choque de um caminhão, talvez no vidro traseiro de quem andava na minha frente, não lembro e não importa, aviso inútil que não muda nenhum destino. Por que? Ora...

Por que vou gastar uma grana se eu posso fazer sozinho?
Ops, eu tenho um amigo que é engenheiro e pode dar uma olhada...
Minha prima já mexeu com obra, ela leva jeito...
Nem morto! Na última vez que usei um arquiteto quase saímos no tapa...
Jo soy un arquitecto nacido...

Se os autônomos escapam disso, dão graças aos céus que têm algo pra fazer, mesmo que esse algo seja um quase nada em arquitetura, e poderão dar de comer aos seus cães ou filhos, caso os tenham, 

Dia desses conversei por telefone com um sujeito que vendia tumbas... Ops, tumbas!? Mais ou menos isso, ele vendia espaços, coordenadas de um novo cemitério.

Falei que deixei uma ordem para ser cremado, que só ia precisar de uma urna, e temporária. Ele riu e disse que urna ele não vendia. Nem vi a cara do sujeito, mas era um tipo simpaticíssimo, e falamos sobre outras coisas até ele dizer que era um corretor da morte, mas pra eu não confundir com 'corretor de morte', que era arquiteto e cansou de não fazer nada durante anos numa construtora, quando tomou a decisão de fazer alguma coisa útil.


15 de out. de 2013

CAMÉLIA DE QUÊ?

Ela tinha. Não, não é latinha. Ela transgredia. Nem bem mulher era, quinze anos, palavra ferina, dentes lindos, inteligente, debochada, desafiava os professores, fazia rir. Não tinha pra ninguém.


Numa aula de educação física uma bolada acertou o olho de um marmanjo, que ele não enxergava nada. Ela se ajoelhou e ficou ali alisando sua testa como quem afaga um cãozinho até ele se levantar. 


Outra vez, pegou um gato atropelado na frente do colégio e fez o pronto-socorro de gente acudir o animal.


Filha de uma índia e um velejador norueguês, exceto pelos cílios e as pupilas negras, da mãe nada emprestou. Do frio herdou da flor bela e da neve a cor dos cabelos e da pele. O sotaque agradável não era nórdico, nem  indígena. Alquimia genética exótica, esdrúxula, loja de brinquedos, fada ou bruxa, quem saberia? 


E se era desbocada, sabida era mais ainda e besteira não falava nunca. Quando sorria, bastava isso, quem não queria? Queria o quê? Dava vontade, dava paúra, era o inferno. Olhos grandes que cegavam, boca que mordia sem morder, pernas lindas, súcubo nos pesadelos.


Camélia de quê mesmo? Um monte de consoantes embarcaram com ela e o pai num veleiro pra nunca mais ser vista. Só ficou um ano no colégio e deixou sua marca pro resto da vida em não sei quantos. A escola que nunca teve graça, continuou sem graça. 


E se a maioria passa invisível, alguns constroem muros e picham seu nome com todas as cores — ela teceu velas da cor da neve e pintou-as com sonhos.