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28 de set. de 2016

Esperanza

Não se encontra na razão toda a explicação do desejo, mas agregado à alma a poeira das estradas, como as estrelas, transformam a maneira de ver o outro.

Era um fim de outono, dez da noite, último dia do ano, a Ruta 3 deserta. O sol enorme e vermelho do poente não permitia focar à distância uma mancha escura, que podia ser uma ave ou um cão.

Depois de uma hora de caminhada - nem era um cão, nem uma ave, mas a traseira de um automóvel preto parado no meio da pista. E aquele não era um solitário carro quebrado, só o último de uma fila de exatos vinte e seis, e todos vazios.

Naquele momento um estranho sibilo metálico se misturava às rajadas de vento, mas no entorno não havia nada, quando toca a campainha de um celular sobre o painel de um dos carros. Hesitei em atender, mas aquilo insistia tanto que acabei pondo o sujeito no ouvido. E alguém ouviu o meu “alô” com um suspiro, e foi só e tudo o que me foi permitido, não entendi nenhuma palavra até o aparelhinho se calar por conta própria.

O céu escureceu de vez. E se a noite nunca atrasa, aquela veio na hora e com chuva torrencial. Não ia mesmo chegar a lugar algum com tanta água, que me acomodei no banco traseiro daquele carro.

Com o barulho dos trovões o estranho ruído desapareceu. Ou, se, exaurido, embarquei rápido para algum lugar num outro mundo, que não percebi nada até abrir os olhos na primeira manhã do ano seguinte.

O céu era todo anil, o sibilo voltou mais forte, e não havia mais nenhum carro além do que eu estava. Pensei em anotar a placa, que chegando ao vilarejo talvez alguém de lá pudesse me explicar o que acontecia, mas o carro não tinha placa. E se no meu mapa dizia que faltavam só alguns quilômetros, certeza que andei muito mais, e o tal ruído só se calou quando cheguei ao único posto de combustível da região, na entrada da pequena comunidade conhecida como Esperanza, que não tinha mais do que trinta habitantes.   

Mas não havia ninguém no posto, nem na hospedaria.

A estalagem tinha as portas escancaradas. Bati palmas, assobiei, cansei de chamar por alguém. Esperanza fora abandonada. Sobre o balcão do refeitório, uma cesta com pão amanhecido e um café frio numa garrafa térmica. Peguei emprestado um pão e sentei junto a uma mesa próximo à janela.

Estendi meu mapa, a próxima vila era muito distante e voltar também não era pouco. Absorto, olhando a ventania de areia pela vidraça, como uma pipa sem rumo num vento louco um menino ziguezagueava com a mão nos olhos. Larguei tudo na mesa e corri em sua direção. Ele agarrou minhas pernas chorando muito. Abracei-o e entrei com ele na estalagem.  

--- Como se chama? – perguntei.  
--- Juan – disse, soluçando. 

--- Que foi, Juan, que está acontecendo aqui? – passando a mão nos seus cabelos tentando acalmá-lo.
--- Eu moro com minha avó, foi ontem de manhã. Ela viu da janela uns caminhões grandes e uns homens de uniforme, mandou eu ficar quieto, que ia ver o que era aquilo, e não voltou.

--- E seus pais?
--- Não tenho pai, sou cego, minha mãe mora em outra cidade. Ontem, enquanto esperava pela minha avó, ouvi gente gritando e chorando, o barulho alto dos motores dos caminhões, fiquei com medo e me escondi, quando entraram em casa não me acharam.

Juan tinha a pele clara, cabelos quase brancos, olhos azuis como de uma pintura, e talvez uns dez anos, e assim que se acalmou, me perguntou onde estava sua avó e quem eu era.

Não pude lhe responder com a precisão que certamente desejava, mas disse se quisesse encontrar sua avó teria que vir comigo e andar uns três dias (na hora decidi voltar), e perguntei se tinha alguma comida na sua casa.

Quase não tinha nada, peguei algumas poucas coisas, um cobertor, uma garrafa de água, e saímos rápido dali, mas me perguntei como alguém podia morar naquele casebre sem calefação, quando no inverno Esperanza tem temperaturas abaixo dos trinta graus? Em Três Cerros é a única referência humana em centenas de quilômetros, com sua hospedaria aquecida e o posto de combustível.

Apesar de não enxergar Juan tinha algum sentido que desconheço. Me acompanhava sem tropeçar, não reclamava nem fazia perguntas. As que eu lhe fiz não sabia responder, mas lembrou que há algum tempo, desde que surgiu no campo aquele estranho ruído metálico, não se podia mais beber a água que vinha do rio, e que sua avó tinha uma vaca e umas galinhas, que foram ficando magrinhas e acabaram morrendo.

Fiquei pensando no que disse. E se enquanto tinha sol, apesar do vento, ainda fazia algum calor, à noite a temperatura caía a uns três ou quatro graus, O dia se fora, e antes do breu total me afastei da pista, cortei uma touceira de capim e fiz ele deitar e se enrolar no cobertor. Dormiu na hora. Rezei para não chover, só tínha um abrigo de chuva.

Dia seguinte, outra vez sem cruzar com uma única alma, andamos umas dez horas até desaparecer da vista a imagem dos Três Cerros (o acidente geográfico que consta dos mapas ingleses desde o Sec. XVI). Descansamos e comemos um pouco antes de seguir. Se aguentássemos a jornada dormiríamos mais uma noite e chegaríamos a Jaramillo no fim do outro dia.

Anos atrás estivera naquelas paragens, mas desta vez, apesar da sempiterna devastadora solidão do deserto, havia alguma coisa muito errada com aquele lugar, nada ali se movia além do vento.

Acordamos cedo na manhã seguinte e andamos novamente o dia todo, eu estava exausto. Apesar da aparência frágil, ele era selvagem, acostumado a coisas inverossímeis, e não demonstrava cansaço, nem aborrecimento, quando no começo da noite, enfim, chegamos a Jaramillo.

Uma semana sem ver ninguém, a primeira coisa que fiz foi entrar com ele numa lanchonete. Juan parecia feliz em ouvir a voz de pessoas, e enquanto comia me perguntou sobre sua avó. O que podia fazer se não levá-lo a uma delegacia de polícia e relatar tudo o que vi e senti?

--- Esperanza? Esse lugar não existe, nunca existiu! De onde você é? – me perguntou o policial.

Tentei argumentar que conhecia aquele lugar, que já estivera lá num inverno. Ele me disse que estava sonhando, que era melhor pra mim esquecer tudo aquilo e ir embora, que eles já tinham problemas demais na região.

Quando se assegurou que Juan era cego mesmo, disse que o levaria para sua casa aquela noite, que no dia seguinte o encaminharia para uma tal Fundação do Menor, e que iam procurar o paradeiro da sua avó.

Naquela mesma noite consegui uma carona de um funcionário da estatal petrolífera, mas tudo que lhe perguntei ficou no ar, ele não falava nada sobre o assunto. De madrugada cheguei a Rawson, daí o reencontro com a civilização.

Foi a última vez que estive por lá, mas não estava sonhando, aqueles automóveis sumiram enquanto dormia. E como esquecer daquele menino? Tampouco soube o que fizeram com aquelas pessoas.

Pela descrição de Juan - água contaminada, os animais da avó que definharam, a gritaria, homens de uniforme e o barulho dos caminhões, tenho a impressão que foi o exército que retirou às pressas os moradores de Esperanza e isolou aquela área.

Não há verdade que não se duvide, mas exatamente naquelas coordenadas (latitude 48º 07´- longitude 67º 38´), concentra-se o maior buraco de ozônio do planeta. 




4 de set. de 2016

OUTROS DIAS, OUTRAS PESSOAS, OUTROS SORRISOS...

Outros dias, outras pessoas, outros sorrisos...

Acabei de pegar o Renatinho na escola, tá com dor de dente.
-- Abre a boca, filho, mostra onde dói. -- Não.
Sou a mãe dele, tô exausta, meu chefe é um chato de galocha, pensa que sou sua escrava , e acho que sou mesmo.
-- Abre a boca, filho, mostra onde dói! 
Ele chora, berra de boca fechada, pode? Pode. Minha vontade é de chamá-lo de filho da puta, mas não sou de dizer essas coisas e sou sua a mãe.
Ligo pro Renato, o pai dele, meu marido há nem sei quanto tempo. Ocupado, claro, sempre ocupado, não tem tempo pra nada. A secretária pede pra ligar mais tarde. Digo que é urgente, ela volta e diz que ele me retorna em seguida.
O carro anda e para, mas ele não, nem o barulho da rua disfarça, é uma berração em uma nota só.
Meu deus, vou pra casa ou levo ele ao dentista sem consultar o Renato? Liga, Renato, liga, não tô mais aguentando isso. Mas ele não liga. Não sou mesmo de falar palavrão, mas quero que o mundo se foda, não tenho dez reais na carteira e é aqui mesmo que vou entrar.
Lugar meio sujo, nunca entrei num Posto de Saúde da Prefeitura, nunca precisei. A Maria, minha diarista, diz que tem dentista, tá certo que ela tá na fila há meses para arrumar uma ponte, mas o Renatinho não precisa de dentadura, só de uma dura ou um remédio qualquer.
Ai meu pai do céu, por que mereço isso? Ele puxou tudo do pai, não só o nome, mordeu o dedo do doutor igual a um cão raivoso, e ainda tive de ouvir um sermão daqueles.
Depois que enfiei ele no carro, abriu a boca gritando mais ainda. Cadê o Renato, que nunca está onde e quando preciso dele. Manhê, socorro, não dei nenhum trabalho quando era criança, sua imbecil inútil, por que morreu tão cedo? Que adianta, agora nada adianta, tô morta, a cada minuto parece que minha casa se afasta mais com esse trânsito. Quando chegar vou dar um doril pra ele, vamos ver se passa.
-- Filho, diz pra mamãe quando começou essa dor, fala comigo por favor. Buá....e buá.... 
-- Alô? Renato? Arre. O que foi? Seu filho, que não para de chorar. Tá, nosso filho, desculpe. Onde estou? Na rua, no trânsito, com ele berrando de dor de dente, não tá escutando? Como..? Eu sei que ele tem os dentes perfeitos, iguais aos seus, mas tá berrando, com a mão na boca, até parei no Posto de Saúde, mas quem disse que ele abre a boca. -- Claro que o doutor tentou, mas sabe o que ele fez? Quase arrancou o dedo do sujeito, que ainda me deu uma dura daquelas, que não sei criar meu filho, quer dizer nosso filho. – Está rindo? Pera aí, me escuta, tô chegando em casa, pensei em dar um doril pra ele, que acha? Não?  Então o quê? 
Merda, acabou a bateria do celular.
-- Filho, para de chorar, por favor, vai passar logo, mamãe vai te dar um remédio assim que a gente entrar em casa.
Mas assim que abrimos a porta ele parou de chorar. – Ai, num acredito, tava ficando louca. Passou, filhinho? Ele balança a cabeça, que sim. – Diz agora pra mamãe onde doía? Ele levanta a gengiva e mostra um corte. -- Que foi isso? -- Foi o Alfredo, sabe? -- Não, não sei. -- Foi ele, o Alfredo, ele me acertou um soco bem aqui. -- Por que, filho, que você fez? --  Ele me xingou e eu dei uma mordida nele, quando soltei ele me deu um murro. – Mas você mordeu ele...? – Mordi.
– Não acredito, virou índio, é? Quando seu pai chegar nós vamos ter uma conversinha, agora vai fazer suas coisas, que já são sete e meia, não tenho tempo pra nada, tô morta e tenho que fazer o jantar pro seu pai, e eu nem posso pensar em comida.
-- E toma isso, filho, bochecha três vezes. -- Se arde? Arde, arde muito, acho que você vai morrer... 
Só ouvi ele no banheiro bochechando umas dez vezes. Eu sei que mereço. Sou uma idiota incompetente, quase derrubei a frigideira com óleo fervendo só de sentir o Renato entrando e perguntando cadê o filhinho dodói.
– Tá no quarto, era um corte na gengiva, ele mordeu um tal de Alfredo e levou um murro na boca.
– Eu sabia.
– Sabia o quê?
– Que não era dente cariado, nunca tive uma cárie, igual meu pai e meu avô. E o jantar, está pronto?
-- Como pronto, quantas mulheres você tem, não acabei de chegar?
– É que, acho que esqueceu né, hoje é quinta, tenho o joguinho de futebol lá no clube, mas tudo bem, vou ver o Renatinho e me trocar rápido. No caminho me viro e como um sanduba.
-- Filhooooo, filhoooo...

Quando li dia desses o que uma poeta escreveu, que ainda bem que existem outros dias, outras pessoas, outros sorrisos, juro que se ela fosse viva ligaria pra ela e perguntaria o porquê desse ainda bem. 

4 de jan. de 2014

A palavra ignorante não se aplica às crianças e analfabetos, é específica aos que sabem ler, escrever e interpretar.


A diferença entre o conhecimento do maior sábio e o que nada sabe, não passa de um degrauzinho insignificante ante o indescoberto!


Como fazer com que a maioria pense no planeta, quando sonham em preto e branco e o salário termina no meio do mês?