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28 de set. de 2016

Esperanza

Não se encontra na razão toda a explicação do desejo, mas agregado à alma a poeira das estradas, como as estrelas, transformam a maneira de ver o outro.

Era um fim de outono, dez da noite, último dia do ano, a Ruta 3 deserta. O sol enorme e vermelho do poente não permitia focar à distância uma mancha escura, que podia ser uma ave ou um cão.

Depois de uma hora de caminhada - nem era um cão, nem uma ave, mas a traseira de um automóvel preto parado no meio da pista. E aquele não era um solitário carro quebrado, só o último de uma fila de exatos vinte e seis, e todos vazios.

Naquele momento um estranho sibilo metálico se misturava às rajadas de vento, mas no entorno não havia nada, quando toca a campainha de um celular sobre o painel de um dos carros. Hesitei em atender, mas aquilo insistia tanto que acabei pondo o sujeito no ouvido. E alguém ouviu o meu “alô” com um suspiro, e foi só e tudo o que me foi permitido, não entendi nenhuma palavra até o aparelhinho se calar por conta própria.

O céu escureceu de vez. E se a noite nunca atrasa, aquela veio na hora e com chuva torrencial. Não ia mesmo chegar a lugar algum com tanta água, que me acomodei no banco traseiro daquele carro.

Com o barulho dos trovões o estranho ruído desapareceu. Ou, se, exaurido, embarquei rápido para algum lugar num outro mundo, que não percebi nada até abrir os olhos na primeira manhã do ano seguinte.

O céu era todo anil, o sibilo voltou mais forte, e não havia mais nenhum carro além do que eu estava. Pensei em anotar a placa, que chegando ao vilarejo talvez alguém de lá pudesse me explicar o que acontecia, mas o carro não tinha placa. E se no meu mapa dizia que faltavam só alguns quilômetros, certeza que andei muito mais, e o tal ruído só se calou quando cheguei ao único posto de combustível da região, na entrada da pequena comunidade conhecida como Esperanza, que não tinha mais do que trinta habitantes.   

Mas não havia ninguém no posto, nem na hospedaria.

A estalagem tinha as portas escancaradas. Bati palmas, assobiei, cansei de chamar por alguém. Esperanza fora abandonada. Sobre o balcão do refeitório, uma cesta com pão amanhecido e um café frio numa garrafa térmica. Peguei emprestado um pão e sentei junto a uma mesa próximo à janela.

Estendi meu mapa, a próxima vila era muito distante e voltar também não era pouco. Absorto, olhando a ventania de areia pela vidraça, como uma pipa sem rumo num vento louco um menino ziguezagueava com a mão nos olhos. Larguei tudo na mesa e corri em sua direção. Ele agarrou minhas pernas chorando muito. Abracei-o e entrei com ele na estalagem.  

--- Como se chama? – perguntei.  
--- Juan – disse, soluçando. 

--- Que foi, Juan, que está acontecendo aqui? – passando a mão nos seus cabelos tentando acalmá-lo.
--- Eu moro com minha avó, foi ontem de manhã. Ela viu da janela uns caminhões grandes e uns homens de uniforme, mandou eu ficar quieto, que ia ver o que era aquilo, e não voltou.

--- E seus pais?
--- Não tenho pai, sou cego, minha mãe mora em outra cidade. Ontem, enquanto esperava pela minha avó, ouvi gente gritando e chorando, o barulho alto dos motores dos caminhões, fiquei com medo e me escondi, quando entraram em casa não me acharam.

Juan tinha a pele clara, cabelos quase brancos, olhos azuis como de uma pintura, e talvez uns dez anos, e assim que se acalmou, me perguntou onde estava sua avó e quem eu era.

Não pude lhe responder com a precisão que certamente desejava, mas disse se quisesse encontrar sua avó teria que vir comigo e andar uns três dias (na hora decidi voltar), e perguntei se tinha alguma comida na sua casa.

Quase não tinha nada, peguei algumas poucas coisas, um cobertor, uma garrafa de água, e saímos rápido dali, mas me perguntei como alguém podia morar naquele casebre sem calefação, quando no inverno Esperanza tem temperaturas abaixo dos trinta graus? Em Três Cerros é a única referência humana em centenas de quilômetros, com sua hospedaria aquecida e o posto de combustível.

Apesar de não enxergar Juan tinha algum sentido que desconheço. Me acompanhava sem tropeçar, não reclamava nem fazia perguntas. As que eu lhe fiz não sabia responder, mas lembrou que há algum tempo, desde que surgiu no campo aquele estranho ruído metálico, não se podia mais beber a água que vinha do rio, e que sua avó tinha uma vaca e umas galinhas, que foram ficando magrinhas e acabaram morrendo.

Fiquei pensando no que disse. E se enquanto tinha sol, apesar do vento, ainda fazia algum calor, à noite a temperatura caía a uns três ou quatro graus, O dia se fora, e antes do breu total me afastei da pista, cortei uma touceira de capim e fiz ele deitar e se enrolar no cobertor. Dormiu na hora. Rezei para não chover, só tínha um abrigo de chuva.

Dia seguinte, outra vez sem cruzar com uma única alma, andamos umas dez horas até desaparecer da vista a imagem dos Três Cerros (o acidente geográfico que consta dos mapas ingleses desde o Sec. XVI). Descansamos e comemos um pouco antes de seguir. Se aguentássemos a jornada dormiríamos mais uma noite e chegaríamos a Jaramillo no fim do outro dia.

Anos atrás estivera naquelas paragens, mas desta vez, apesar da sempiterna devastadora solidão do deserto, havia alguma coisa muito errada com aquele lugar, nada ali se movia além do vento.

Acordamos cedo na manhã seguinte e andamos novamente o dia todo, eu estava exausto. Apesar da aparência frágil, ele era selvagem, acostumado a coisas inverossímeis, e não demonstrava cansaço, nem aborrecimento, quando no começo da noite, enfim, chegamos a Jaramillo.

Uma semana sem ver ninguém, a primeira coisa que fiz foi entrar com ele numa lanchonete. Juan parecia feliz em ouvir a voz de pessoas, e enquanto comia me perguntou sobre sua avó. O que podia fazer se não levá-lo a uma delegacia de polícia e relatar tudo o que vi e senti?

--- Esperanza? Esse lugar não existe, nunca existiu! De onde você é? – me perguntou o policial.

Tentei argumentar que conhecia aquele lugar, que já estivera lá num inverno. Ele me disse que estava sonhando, que era melhor pra mim esquecer tudo aquilo e ir embora, que eles já tinham problemas demais na região.

Quando se assegurou que Juan era cego mesmo, disse que o levaria para sua casa aquela noite, que no dia seguinte o encaminharia para uma tal Fundação do Menor, e que iam procurar o paradeiro da sua avó.

Naquela mesma noite consegui uma carona de um funcionário da estatal petrolífera, mas tudo que lhe perguntei ficou no ar, ele não falava nada sobre o assunto. De madrugada cheguei a Rawson, daí o reencontro com a civilização.

Foi a última vez que estive por lá, mas não estava sonhando, aqueles automóveis sumiram enquanto dormia. E como esquecer daquele menino? Tampouco soube o que fizeram com aquelas pessoas.

Pela descrição de Juan - água contaminada, os animais da avó que definharam, a gritaria, homens de uniforme e o barulho dos caminhões, tenho a impressão que foi o exército que retirou às pressas os moradores de Esperanza e isolou aquela área.

Não há verdade que não se duvide, mas exatamente naquelas coordenadas (latitude 48º 07´- longitude 67º 38´), concentra-se o maior buraco de ozônio do planeta. 




1 de ago. de 2014

Arquitetura Pós-Moderna e o Admirável Mundo Novo

ESCADA1

De alguma forma o modernismo na arquitetura pretendeu socializar a habitação e a arte, valorizar os espaços coletivos, baratear o custo das obras retirando o supérfluo, enfim utilizando-se de recursos tecnológicos dividir melhor o “bem-estar”.

E logo me recordo da ficção “O Admirável Mundo Novo” do Aldous Huxley, que mostra o homem mais feliz quando sem contestação nasce e vive pra cumprir funções específicas, aonde ninguém puxa o tapete de ninguém nem inveja o outro, algo que imagino seja parecido com a divisão social num formigueiro.

Mas tenho certeza que o autor não propôs este caminho nem em sonho porque chorou quando descendo do avião viu Brasília à época da sua inauguração.

Obviamente é consenso que todos tem que ter um teto decente, meta de qualquer governo que se preze, e os projetos modernistas foram executados sistematicamente no século passado, não obstante a maioria ser capenga nos seus princípios fundamentais. Temos isso aqui no Brasil e também na maior parte do mundo.Talvez ao longo dos anos algumas das idéias que fundamentaram o modernismo na arquitetura tenham se perdido, quando o “igual” do ideário se transformou no “igual” mal feito, que visou metas políticas ou de lucro fácil.

E assim, como nada é eterno, a arquitetura modernista foi dando lugar outras formas e pensamentos, que vai ocupando esse espaço meio vago, sem uma ordem formal, e por também não ter um nome apropriado é chamado de arquitetura pós-moderna, essa que tem várias caras — desconstrutivista, brutalista, lúdica, futurista etc.O que mais isola e exclui o indivíduo é a desigualdade econômica, não a diversidade e a liberdade de expressão em qualquer das suas formas.

Não seríamos nem melhores, nem mais felizes numa sociedade como a ficção do Huxley, isso na prática é puro fascismo. O homem não é uma barata e não se adapta bem às situações que lhes são adversas por longa data. Ao Estado pode caber o pensamento, que há mais dignidade morar num conjunto habitacional, seja qual for, que viver sob uma ponte. No entanto essa “dignidade” vista à distância não traduz o grau de felicidade do indivíduo.

Os conceitos básicos do modernismo impregnados até hoje nos mecanismos públicos sempre consideraram o homem no coletivo, até porque é difícil ver isso de outra forma, mas cada qual é único nos desígnios da sua vida e não é factível, sem seu consentimento, a qualquer outro escrever o seu destino. Por isso a maioria não privilegiada ainda prefere morar nos seus “puxadinhos” que nos conjuntos “impessoais” feito às pressas.

Outra coisa são os mega-projetos modernistas, caso da cidade planejada de Brasília, que ao fim da obra perguntaram ao urbanista Lúcio Costa, criador da cidade, se ele não sabia que os milhares de “candangos” ficariam por ali mesmo nas cidades satélites (cujo conceito de moradia era o oposto da modernidade). Ele respondeu que Brasília tinha casas pras pessoas morarem, e que este era um problema de revolução e não de arquitetura.

Como se ele não soubesse que a realidade era essa! O que eu penso disso? Penso que tudo é muito difícil, vivemos numa sociedade injusta, desigual nas oportunidades, e nada que é feito no papel por meia dúzia de gatos vai ser a solução para as muitas dúzias de ratos.

8 de jun. de 2014

Até breve... nunca mais.

Parou de falar com os cachorros do prédio, com as crianças, nem mais um simples olá ou bom-dia deu aos vizinhos, que ninguém entendeu. 

--- Teria  brigado com a mãe ou uma desilusão amorosa? - se perguntou um.

Poderia ter discutido e ficado aborrecido com a mãe, se tivesse mãe. Mulher também não tinha, e nenhum caso que se soubesse.

Aposentado, ainda fazia uns bicos consertando fechaduras e relógios de parede, sempre acompanhado pelo cão que nunca usou coleira. Mas quando mudou, mudou mesmo - parou de trabalhar, e pediu para desligar o telefone. 

--- Não tinha TV,  e agora também sem telefone... Será que ficou surdo?  - se questionou outro.

Podia ser, mas não parecia. O velho aparentava boa saúde, e seu cão também. Saíam muito cedo, só voltavam ao anoitecer.

--- Onde iam, como gastavam as horas? - curiosos, pensavam todos. 

O edifício era pequeno, antigo, e abrigava uns tantos desempregados, que falavam alto e viviam discutindo. Tudo era motivo pra encrenca - o filho do outro que deu um chute, o grito de gol do time adversário... Os que não gostavam de discussão eram mestres em intrigas. Aquilo era o exemplo saudável do inferno sem o demônio, e o velho solitário deve ter se enchido daquela gente, que pensava em tudo menos nisso.

-- Pode ter recebido uma notícia lá da sua terra, a morte de algum parente que gostava... - falou o síndico para o bando de briguentos.

Ele era o morador mais antigo, ninguém o viu chegando, nem sabiam se teve mulher, se era viúvo. O sotaque estranho não se identificava a origem, e ele nunca explicou a nenhum, mas quando lhe perguntavam dizia ter nascido ali mesmo. Podia ser, mas não parecia ser.

Numa manhã saiu com seu cão, como de costume, mas não voltou. Nem no outro dia também.

--- Eu sabia! Alguma coisa errada tinha... - comentou seu vizinho do lado.

Um outro alguém também comentou que podia ser um foragido da Justiça.

---  Ele é velho, pode ter morrido na rua, isso acontece! -  disse a vizinha do térreo.

Uma semana depois...

--- E se voltou de madrugada e ninguém viu? Pode estar morto aí no apartamento...  - sugeriu o morador novo, que mal o conhecia.

Quando o policial arrombou a porta do apartamento, entraram todos - o apartamento estava absolutamente vazio e limpo, janelas fechadas, nenhuma cadeira, tapete ou copo. Ninguém viu mudança alguma, nem o velho saindo com alguma tralha além do cão.

--- Ninguém vai embora assim sem um até breve... -  todos querendo respostas.

--- Esse é um país livre, cada um vai quando e pra onde quiser... --- falou o delegado, irritado com aquela gente.

Parentes ele não tinha, e se ninguém da família faz um Boletim de Ocorrência do desaparecimento, a polícia não toma conhecimento.

--- E agora, como vai ficar o apartamento dele? .. Ou não é dele? - perguntou ao síndico, a Sra. do último andar..

--- É dele sim. -  disse o síndico, que ainda não sabia que naqueles dias o velho vendera, e que saiu do banco com uma mala de dinheiro, indo sabe-se lá pra onde com seu cão que nunca usou coleira.

Sobre seu paradeiro ninguém nunca soube, mas tampouco esqueceram a despedida que não teve, aquilo incomodava.

E mesmo muito tempo depois, com os mesmos genes encrenqueiros dos pais, os filhos crescidos continuavam inconformados com o velho que sem um até breve sumiu como veio, sem ninguém ver.

Se alguém achar que a história é chata, que não tem um final, eu respondo sem nenhuma aflição: tem sim, o inferno existe sem o demônio e é aqui mesmo, mas nem todo mundo se sente atraído.     

11 de jan. de 2014

Palhaço?

Estava superatrasado, acabara de engolir um almoço sem graça, quando meu cão aparece na porta da cozinha com uma chave entre os dentes.

--- Vem aqui, Tom, deixa eu ver isso!

Ele faz umas firulas, joga pra cima, pega de novo. Me aproximo... ele se afasta.

--- Para com isso, Tom, vem aqui... vamos trocar por uma bolacha!

Com a bolacha na mão ele fica na dúvida, se aproxima, quer a bolacha, mas a chave ele não solta. Por fim, depois de uns segundos, decide pela farinácea e deixa a chave cair. É a chave do meu carro, me abaixo pra pegá-la, ele é mais rápido e a abocanha de um só golpe, ainda com parte da bolacha na boca.

--- Olha aqui, Tom, vamos parar...tô atrasado e isso não tem graça nenhuma!

Curvo os joelhos e o chamo carinhosamente... Ele vira de bunda e me olha de soslaio da soleira da porta da cozinha. Ameaço correr, ele sai da cozinha numa arrancada de atleta, mas pára a uns três metros.

--- Puta que pariu, Tom, você vai levar uma surra! - grito, bravo, já sem paciência, quando toca o telefone.

--- Alô? Quem? Ah... sim, pois não. (É a moça da Vivo que pergunta se o Speedy ficou bom).

---  Não sei, não, moça. Fiquei a manhã toda sem conexão, mas agora não posso ver isso, estou atrasado e tenho que sair.

--- Como? Tô dizendo que não dá pra ligar o computador agora, que estou em cima da hora para um compromisso e o Tom está me olhando com a chave do carro na boca.

--- Por que deixo meu filho pôr a chave na boca? Se eu sei que chave tem bactéria? Não, minha Senhora, o Tom não é meu filho, não tenho filhos, e vai ser um inferno chegar atrasado, meu cliente não tolera isso.
 Eu sei, eu sei, moça, que é o seu trabalho, que precisa saber se está funcionando,  mas agora não dá mesmo, então escreve aí que eu não pude ver isso, porque meu cão roubou a chave do carro e está me olhando agora com aquela cara de idiota, só esperando eu desligar o telefone pra correr atrás dele!


--- Já disse que não é meu filho, moça! É um cão, um filho da puta que peguei na rua outro dia, quase morrendo, e que agora toma conta de tudo...

--- Não, minha Senhora, não a estou ofendendo, estou atrasado..! E ele não é um cão bravo, é um bem pequeno, parece o Garrincha, pernas tortas, dribla, só quatro dedos em cada pata, e é da pá virada... Um segundo, minha Sra.!

Largo o telefone e aproveito que ele está perto do fogão, distraído. Corro e fecho a porta da cozinha.

--- Agora dá aqui essa chave, Tom!

Ele circula ao redor da mesa me fazendo de palhaço. Cerco ele com as cadeiras, mas o monstrinho vai pra sala. Depois de uns minutos de correria, ele entra no lavabo.

--- Agora se fodeu, né Tom?

Fecho a porta, lavabo minúsculo..  ele larga a chave no chão e me olha com aquela cara de coitadinho. Devia dar uma surra no safado, mas lembrei do telefone...

--- Alô, me desculpe, Senhora... Não, não fui ver se o Speedy está funcionando...  O que fiz nesse tempão? Minha chave, a chave do carro... consegui pegá-la, lavabo é uma armadilha!  O quê? Não, claro que não, não estou pensando que a Senhora é palhaça.

Desligou na minha cara! Se tem algo que detesto é isso, só deus sabe quanto. Pus no gancho, abri a porta da cozinha pro Tom sair... outra vez toca a merda do telefone...

--- Olha aqui, minha Senhora, sou educado, mas não suporto que desliguem o telefone na minha cara, então, mesmo não conhecendo sua mãe, vai a puta que o pariu! Entendeu? Ahn...?! Quem? Sim, sou eu mesmo! Sei que marquei com o Senhor, me desculpe, já estou saindo... Se eu sei que horas são? Sim, é que me enrolei um pouco, primeiro o Tom roubou a chave do carro, depois foi a moça do Speedy...  O quê? Não, absolutamente... Claro que não penso que o Senhor é um palhaço, é que...

Não era mesmo meu dia, outro telefonema desligado na minha cara, duas vezes em dez minutos!

Respirei fundo, o  sol invadia a cozinha, dia lindo... o Tom na janela pelo lado de fora, com os lábios erguidos, jeito de sorrir, me convidando pra passear...

Dia aziago desde que acordei...

--- Pera aí, Tom! Só me dá um minutinho pra pegar o alicate e cortar o fio do telefone antes que me arrependa.

4 de jan. de 2014

A palavra ignorante não se aplica às crianças e analfabetos, é específica aos que sabem ler, escrever e interpretar.


A diferença entre o conhecimento do maior sábio e o que nada sabe, não passa de um degrauzinho insignificante ante o indescoberto!


Como fazer com que a maioria pense no planeta, quando sonham em preto e branco e o salário termina no meio do mês?

2 de jan. de 2014

O MENINO E AS PONTES



— Você não pode entrar! Cadê o Visto? – no balcão do posto aduaneiro, falou o militar boliviano ao Menino.  --- 
Tem que retornar ao Peru, em Puno há um consulado da Bolívia…

— Ninguém me disse nada, Senhor, não estou entendendo…

— Eu estou dizendo! Sem o Visto ninguém entra na Bolívia!  – disse o militar.

— Mas fui até a Guiana, Senhor … até agora ninguém me pediu esse tal Visto…

— Aqui na Bolívia é assim, só entra com o Visto!


Do lado oposto da ponte que liga os dois países, o funcionário da aduana peruana explica porque ele não pode entrar mais no Peru…


— Só entra aqui quem vem de lá (apontando com o dedo para a Bolívia). Não foi você que acabou de sair daqui agorinha mesmo? E não fui eu mesmo quem pôs o carimbo no seu passaporte?

— Sim, foi… – disse o Menino. — Mas eles disseram que tenho que ir ao consulado boliviano em Puno…

— Sinto, não é possível… você acabou de sair, agora só pode entrar novamente se tiver o carimbo de saída da Bolívia.


Do lado de lá da ponte, novamente na aduana boliviana.


— Não tem outra maneira, Senhor? Eles dizem que só posso ir a Puno se vocês carimbarem minha saída…

— Como vou escrever aqui que saiu se não entrou? Já disse e vou repetir, sem o Visto do cônsul da Bolívia em Puno, por aqui ninguém passa! - falou o militar.


O Menino observa que ele usa um velho par de tênis sem meias, uma farda desbotada, e escuta atentamente algum jogo de futebol num radinho de pilha …E sai dali olhando o desfiladeiro pela balaustrada da ponte, caminhando lentamente, como quem, sem pressa, sabe o que não vai encontrar. Olha para os seus pés machucados e limitados, e inveja as aves que cruzam a fronteira dispensando as pontes e a burocracia. Fecha os olhos, os semblantes dos policiais lhe surgem na retina; tapa os ouvidos, escuta-os dizendo “não”. Lembra então da avó, dos amigos, e chora.


Novamente na aduana peruana.


— Você de novo, Menino?

— Por favor, Senhor, já é quase noite, cheguei as dez da manhã e não consigo sair desta ponte, tenho que voltar pra casa. minha avó está doente e mora muito longe daqui.


Olhando nos olhos do Menino, o funcionário da aduana fala pausadamente…

— Enquanto eu estiver neste posto, não posso deixar você passar. Às vezes preciso ir ao banheiro, que fica ali fora (apontando para uma casinha esverdeada). Quantas pessoas  você vê trabalhando aqui?


Minutos depois ele se afasta em direção a tal casinha.


Pelas palavras não ditas, o Menino encontrou o jeito de voltar ao Peru. Em Yonguyo, cidade da fronteira, não havia linhas de ônibus ou trens regulares, e a única forma do ir ou vir era em caronas pagas nos caminhões de transporte, ou pelo lago Titicaca  de barco


Horas depois, por 30 soles adiantados, num pequeno caminhão que ia a Cusco, o Menino aguardou sentado na carroceria até que cholas, caixas, cabras e galinhas ocupassem totalmente o pequeno engradado de madeira do pequeno e velho caminhão, que passou por Puno quando amanhecia. O consulado boliviano abria às 11hs.


Às 11 hs em ponto.


— Bom dia, minha Senhora. Preciso falar com o cônsul.

— Hoje não é possível, ele está doente e não pode atender ninguém.

— Minha avó também está doente e preciso voltar pra casa, preciso desse Visto. Não dormi nem comi nada, passei a noite num caminhão… Por favor, Senhora…

— Vou tentar… Mas não prometo nada…


Minutos depois, o cônsul geral da Bolívia aparece de pijama na antessala, um ancião de cabeleira branca, barba por fazer, pálido como os mortos, tossindo, e aos berros, dizendo que ganhava uma merda e não tinha nem o direito de ficar doente.

— De quem é o passaporte? – praguejou o velho.

— Meu, é meu, Senhor. – disse o Menino.


Sem proferir mais nenhuma palavra, o velho pegou o documento e voltou tossindo para o fundo da casa.


Um tempo depois…


— Está aqui seu Visto, você tem sorte. – disse a Senhora. — O cônsul está muito nervoso, ontem ao telefone brigou com um general da Capital e parece que vão transferi-lo para algum lugar no fim do mundo.


Por outros 20 soles, o Menino conseguiu um barco de pesca que ia até a fronteira da Bolívia.Já era noite quando chegou. Caminhou até a ponte que separava os países, sentou sobre a mochila, e ficou observando o posto aduaneiro do Peru, lembrando as palavras mágicas que ouvira na noite anterior. Quando a luz da casinha externa à guarita acendeu, ele passou. Passou rápido na escuridão da lua nova mal enxergando onde pisava. Cansado e no breu nada lhe pareceu igual. Nem era tão verde a casinha, nem a ponte tão curta.


Enfim… novamente na aduana boliviana.


— Boa noite, Senhor, pode carimbar meu passaporte?

— É raro alguém vir a essa hora. – disse o militar. — Vamos ver… Sim, está correto, tem o Visto…

Mas quando olhou mais atentamente o passaporte…

— Ora, ora… temos um problema, aqui diz que você saiu anteontem de Yonguyo… Como chegou aqui, veio voando?

— Bem que gostaria, Senhor! Faz sim, dois dias, que saí de Yonguyo, mas quando ia entrar, seu companheiro, aquele que usa tênis e tem um radinho de pilha, disse que não podia sem o Visto. Voltei então até Puno, depois peguei um barco que vinha para a fronteira. Passei pelo posto peruano e aqui estou. Assim eu vim…

— Mas Yonguyo é do outro lado do Titicaca… Ali (apontando com o dedo para o fim da ponte) é Desaguadero, você tomou o barco errado. Vou ter que falar com a chancelaria em La Paz, não sei se posso deixar você entrar por aqui. Amanhã, no horário comercial, o meu substituto fará essa consulta. Se quiser pode dormir aí no banco. – disse burocraticamente o militar.


Às 9 hs da manhã, o militar que o substituiu, devidamente informado sobre o caso, ligou para a chancelaria em La Paz.


— Alô, alô? Aqui é do posto de fronteira P21. Tenho um problema e preciso falar com o coronel Luma.  Ahn… não estou ouvindo direito, fale mais alto!  Não, não… tem que ser mesmo o Luma! O quê? Como ele não está, são mais de nove horas! Ok… Então chama o coronel Chaves. Não estou escutando direito… É isso mesmo, ele não está também?  Como…? Estão todos em casa assistindo pela TV a Raquel Welch no “Café com o presidente”?  Ok, ok,  ligo então depois do almoço.


Ouvindo a conversa, o Menino fala…


— Minha avó está doente, Senhor, ainda tenho mais de três mil quilômetros até a minha casa, e vai fazer três dias que não saio do mesmo lugar. Meu dinheiro está acabando, deixa eu passar, por favor, releva esse probleminha…

— Você não ouviu? Todos estão ocupados vendo a Rachel, mas até a tarde vamos resolver isso, faz aí o seu lanchinho e vamos aguardar. Tenho que falar com o coronel Luma ou com o coronel Chaves, com um ou com o outro, ninguém mais pode resolver isso.

— Desculpe-me, Senhor, não sei se entendi bem, mas por que a Rachel Welch está falando com o presidente?

— Ora, porque ela é boliviana… veio lançar um filme e nos visitar por ocasião do seu aniversário, e agora mesmo está conversando com o general Hugo Banzer, no seu programa matinal. Pena mesmo não ter uma TV aqui, hoje é quase feriado na Bolívia. – concluiu o militar..


À tarde…

O militar trocando de turno explica ao companheiro, que à noite foi informado sobre o que ocorria, e que já ligara à chancelaria. Diz ao companheiro que essa situação confusa só pode ser resolvida com a anuência da chancelaria da capital, mas tanto o coronel Luma como o Chaves não trabalharam no período da manhã porque estavam em casa assistindo o  ”Café com o presidente”.


Depois de assinar um livro, o novo militar liga novamente à chancelaria.


— Alô? Chama aí o Luma…  Quem? Ah… sim, desculpe, é o Senhor mesmo, boa tarde, coronel Luma! Desculpa, a ligação está bem ruim, quase não se escuta… Quem fala aqui é o o cabo Esteves do P21. O que se passa? Sim, explico, é que o cidadão não tinha o Visto e… Eu sei, coronel, eu sei, que sem Visto ninguém entra, mas agora ele já tem.   Como? Desculpe… o quê? Qual é então o problema? Bem, coronel, é que ele saiu por Yonguyo faz três dias e… Sim, sim, entendi, então é só ele pagar a multa …  claro, obrigado Senhor coronel, passe bem!


O policial acende um cigarro...


— Você é um rapaz de muita sorte, são só 140 pesos bolivianos para os selos da multa e a questão tá resolvida.

— Multa? Mas só tenho 300 pesos…

— Muito bom, bom mesmo, aqui você só paga 140 pesos e está liberado pra entrar… ou se preferir toma um barco, atravessa o Titicaca, e entra por lá...


Inconformado, o Menino paga a tal multa e começa sua longa viagem de volta dentro das boleias ou sobre as carrocerias dos caminhões, e tanto lhe vinham imagens da avó, como das crianças descalças das ilhas de palha do Titicaca,  as areias do Atacama, lembrava dos amigos se lamentando da última derrota do Urano (seu time de várzea).



Quase congelou no alto da carga de arroz de um caminhão na Sibéria do Altiplano. Depois, no Trem da Morte, na selva boliviana, num calor insuportável, viu nuvens de borboletas inesquecíveis, e  numa minúscula estação sem nome, por esconder sob as saias latas de leite em pó, viu cholas com crianças no colo sendo arrancadas e arrastadas do trem por soldadinhos de chumbo.


Toda volta é difícil e o Menino chegou tarde para ver a avó.


Mas foi naquele tempo, exatamente naquele tempo, naquelas pontes, quando lhe deram de presente o relógio sem marca, sem ponteiros e sem enfeites, que ele se perdeu da criança que o acompanhava. 



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25 de dez. de 2013

O GOL MAIS BONITO DO MUNDO

França, depois Suécia, e o Brasil foi campeão do mundo em 58. Era bem pequeno, mas nunca esqueci os rostos daquelas pessoas, que ouviam os auto-falantes e acompanhavam o jogo pela movimentação das luzinhas no painel gigante montado na Pça da Sé.
Sem ver o campo e os jogadores, o rádio é quem dava corda à imaginação. A Europa, com a ajuda do Sputinik , pôde ver os jogos ao vivo, quando se iniciou uma nova era nas telecomunicações.
Filmados em 16mm e vendidos para as televisões da América, os jogos e reportagens puderam ser vistos aqui depois da conquista. Lembro que a seleção Argentina teve uma derrota humilhante e foi recebida com uma chuva de moedas quando chegou.Nesse momento, um garoto chamado Pelé nasceu pro mundo, e foi, seguramente, o brasileiro mais conhecido em todos os continentes.
Quase quarenta anos passados vi na TV grega, na entrada do noticiário do horário nobre, imagens dele numa jogada rara que não resultou em gol, quando engana Mazurquievski, goleiro do Uruguai da copa de 70. Por que alguém repetiria todos os dias, pra milhões, um lance onde o jogador chuta a bola fora? Só quem tem paixão pelo futebol pode entender isso.
Mas não sei como nasce essa paixão, mesmo quando uma família inteira não se interessa.Com menos de dez anos, no campo dos bois, na Moóca, dia de semana à tarde, eu pensava que jogava futebol com os amigos da escola. Nós amávamos aquilo apesar de nos sentirmos minúsculos. Lá dentro tudo era gigante - bola, trave, a distância entre os goleiros, muito diferente de ver de fora o mesmo campo aos domingos, quando jogava o meu time do coração, Pascoal Moreira, com a camisa que na época lembrava a do Benfica.
Nunca fora a um estádio e pra mim aquele era o melhor time do mundo. Não perdia nenhum jogo, nem com chuva. E foi com chuva que vi o mais fantástico e inusitado gol da minha vida inteira. Puskas, Pelé, Garrincha, Messi, ninguém fez nada parecido, e vez por outra aquela imagem que nenhuma câmera registrou, que debaixo de um aguaceiro pouquíssima gente viu, me vem à cabeça.
Por acaso, quando li esta semana que morreu em 2005 aos 61 anos de idade, o Pelé loiro, meu ídolo da infância, lembrei esse que matou a bola no peito dentro da área, pôs no chão, e, ainda quicando, deu quatro chapéus seguidos em dois zagueiros antes de marcar num chute simples, rasteiro, sem defesa.
Descendente de polonês, com dezesseis anos teria também encantado o mundo se o vissem naquela época, mas o destino não é igual pra ninguém. Era um pessoa ótima, e foi um bom jogador quando se profissionalizou, mas não muito mais que isso nos dez anos que vestiu a camisa do Coritiba pelo campeonato brasileiro,  Kosilek ele se chamava.

23 de dez. de 2013

Frederica, e deus e o diabo na terra do sol.

"Que dia infernal, hoje deu tudo errado...". - disse a senhora de meia idade ao menino do seu lado.


"Isso aqui está um inferno". – falou o cobrador, com a gravata toda amarfalhada, a um passageiro que entalou na catraca.


Parecia mais um formigueiro aquele amontoado de gente, nenhuma ideia pode ser concatenada com tantos cheiros, ruídos, caras de "soutine", mas fiquei divagando sobre o porquê de se falar tanto no inferno num dia ruim ou muito quente, e quase nada sobre o céu num momento agradável ou de boa sorte.


Passou dos trinta graus logo se tem em mente uma coca-cola, cerveja bem gelada ou algo de Lúcifer. Estranho que as labaredas flamejantes são o antagônico modelo do cálido azul do paraíso, que ninguém cita nos dias bons.Do paraíso fresquinho das terras etéreas do Senhor, só vez por outra, depois de uma delícia qualquer, escuta-se que 'aquilo é dos deuses', ainda assim só uma referência aos deuses pagãos, e não passa disso. Agora, uma coisa é certa, quem fica bravo à toa, fala alto como os trovões, talha pedra com fogo, isso lá é coisa do divino; ao contrário, o capeta é mudo ou muito educado.


O ônibus freiou de uma vez e só não caiu todo mundo porque não se podia cair, lotado que estava. Na hora pensei na Frederica, a indiazinha que está hospedada em casa - ela não ia entender isso. A pequena veio à cidade por estar no programa de reciclagem cultural criado pela Fundação de Amparo ao Índio pra facilitar a ocupação das terras dos seus parentes.


Frederica...? Como puderam dar um nome desses a uma aborígene? Mas é o que menos importa, pra ela complicado são as aulas de catecismo, que não está compreendendo direito e me faz perguntas, que tampouco sei responder. Queria poder lhe explicar essa história do bem e do mal, mas confesso que não sei por onde começar... e minha cabeça estourando com o calor e aquelas falas sobre as más sortes, citando o inferno a cada instante...


Vozes se misturavam aos braços, coxas, cabelos... nem sei como fui lembrar que aprendi com as freiras do colégio, que ao inferno vão as crianças más e desobedientes, os inconformados, os ladrões, enquanto o céu recebe os que pautaram por uma existência comedida e sem sobressaltos, enfim, os que transbordam de amor. Assim me ensinou o catecismo nas suas primeiras lições, mas nem é preciso ser um estudioso do assunto pra perceber que essa espécie de guerra fria só não passa na TV porque todo curioso que se atreveu conhecer não voltou.


Dúvidas, quem não as tem? Se a ciência  já desvendou com o mapa genético os mistérios do corpo, da alma nada se sabe, muito menos onde se traça o destino dos recém-nascidos. Parece que ali tem uma mãozinha de Jeová e outra de Lúcifer, como se na calada da noite trabalhassem juntos, porque no corpinho do bebê vem grudada a etiqueta, que diz o quanto terá de alegria, de saúde, de doença, de tristeza... Por que o bom deus faria parte desse desastre? Cruz credo!


Não obstante, ao menos em pensamento, a maioria esmagadora dos humanos prefere gozar suas férias prolongadas e obrigatórias nos primaveris campos do éter a arder nas fictícias fogueiras das entranhas da terra. Mas fora as especulações metafísicas, nada se sabe de concreto sobre esses misteriosos czares, se há patrulhamento ideológico pelo grau de bondade ou maldade, nem quantas Chinas haveria nesses mundos, só há pura especulação.


Há quem pense que o ingresso ao céu pode ser adquirido matando em nome de deus. Se assim é, imagino um fim de tarde com as beatas de Santa Catarina tomando ar fresco numa animada conversa com os integrantes do Talibã. Argh... Seria deus psicótico, com múltipla personalidade? Como poderia receber de braços abertos um Pen Xin Xong, um Padre Pio, as crianças ortodoxas russas e seus algozes muçulmanos chechenos?


Sei não! Dizem que o inferno hospeda Galileu, Da Vinci, Giordano Bruno; mas se as tais fogueiras queimassem mesmo como as daqui, o inferno seria um 'não lugar' onde só haveria cinzas, e o diabo seria um joão-carvão qualquer, não um cidadão de primeira classe como é tratado nas Assembleias de Deus.


Depois, Dante fez menção a um inferno gelado...  isso é muito confuso. Às vezes penso que marqueteiro sempre existiu, não é privilégio de político, e aqueles da Galileia podem ter invertido a ordem das coisas, fazendo com que todo inconformado com o mal, fossem os maus, e povoaram o inferno com as crianças rebeldes, os pensadores, os ateus, os verdadeiros artistas; no céu hospedaram só os devotos. 


Lá estou eu blasfemando de novo! Droga, acho que o calor no ônibus está me fazendo delirar. 


Arre, desci! Sopra uma brisa suave na calçada, estou chegando em casa. Da esquina vejo Frederica na sua inocência, pulando feliz em frente ao meu portão.Melhor deixar esses pensamentos pra lá, quando ela crescer certamente saberá resolver isso melhor do que eu. Por hora, transborda de alegria e nem desconfia que está perdendo sua história com uma canetada de gabinete. Melhor assim, nem o relógio, nem a Terra vão mesmo girar ao contrário, e sem infâmias ela ainda seguirá criança por algum tempo.

26 de out. de 2013

A CASA DE UM CÃO

Morreu meu cão que se chamava Urso. 

Já faz algum tempo, foi companheiro durante anos. Era louquinho de pedra, saltava mais que o Valéry Brummel e corria mais rápido que qualquer jamaicano. O nome não condizia com sua figura, que exceto pelo branco, nada tinha de urso - eram pequeno, magro, comia pouco, e era confiável. 

Ora, mas o que é um cão? Um quadrúpede que late, orelhudo irracional? Sim, exatamente isso, mas não nada além disso! Cão tem sentimentos - ri, chora, tem raiva, ciúme, amor. 

Haverá quem diga que isso é bobagem, que cão não tem alma -  não digo que sim, nem que não, mas que talvez estes nunca tiveram um cão ou nunca prestaram atenção, ou eu que enxergo coisas estapafúrdias. Mas de uma coisa tenho certeza - um cão nunca trai seu amo.

Urso tinha um teto, pra não dizer uma casinha, que pouco usava, e enquanto teve saúde, fizesse frio, calor, chovesse canivetes, não importava o tempo, nem a hora, ali ao relento, ao lado do portão, sempre me esperando.

Por que ficar de vigília horas a fio sem ter noção de quando seu amo chegaria, se chegaria?


Porque cão liga menos pra sua casinha do que estar ao lado do seu amo. 

Ainda que tenha pensado muito sobre essas coisas e não saiba responder, aprendi a ver que um cão difere do ser humano em tudo. E não só por ter rabo ou patas, mas porque se precisar morder de verdade ele só usa só a boca.