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21 de fev. de 2016

bilhete só de ida


O mundo corporativo nos obriga a comprar e comprar, quem não participa vai sendo posto de escanteio. Já não se consegue mais ativar um Cartão de Crédito pelo telefone fixo, nossa voz é suspeita de fraude, o número do telefone fixo pode ter sido garfado, e para o banco eu posso não ser eu. 


Preencher um formulário de identificação pela net, pode só funcionar se tivermos um Celular para receber um SMS e dar continuidade na operação.


Na Idade Média, para se entrar num feudo, primeiro vinha sozinho o identificador para que pudessem abaixar a ponte elevada para os demais. Os Condomínios atuais substituíram as pontes elevadiças por clausuras vigiadas por porteiros e câmaras, até que nos identifiquem, mas estas, já se mostram falhas e estão sendo substituídas por sistemas de identificação à distância, sem porteiros.


Automóveis estão sendo testados sem motoristas, há estudos para que aviões possam fazer vôos intercontinentais sem pilotos, e em certas regiões drones já fazem entregas.


O que é o homem, esse que caminha pra não sair do lugar (sic), cuja identificação eletrônica é mais aceitável que sua presença fisica?


Esse bípede falante, que aceita viver cercado de Regras que julga inteligentes, inventadas pela ganância sem limites de filósofos do tecnicismo,  tecnocratas que comandam corporações, políticos que dirigem países -, possivelmente nem perceba que estão excluindo o humano do ser ‘humano’, e  tudo indica que nesse trem só há bilhetes “one way”.

11 de jan. de 2014

Palhaço?

Estava superatrasado, acabara de engolir um almoço sem graça, quando meu cão aparece na porta da cozinha com uma chave entre os dentes.

--- Vem aqui, Tom, deixa eu ver isso!

Ele faz umas firulas, joga pra cima, pega de novo. Me aproximo... ele se afasta.

--- Para com isso, Tom, vem aqui... vamos trocar por uma bolacha!

Com a bolacha na mão ele fica na dúvida, se aproxima, quer a bolacha, mas a chave ele não solta. Por fim, depois de uns segundos, decide pela farinácea e deixa a chave cair. É a chave do meu carro, me abaixo pra pegá-la, ele é mais rápido e a abocanha de um só golpe, ainda com parte da bolacha na boca.

--- Olha aqui, Tom, vamos parar...tô atrasado e isso não tem graça nenhuma!

Curvo os joelhos e o chamo carinhosamente... Ele vira de bunda e me olha de soslaio da soleira da porta da cozinha. Ameaço correr, ele sai da cozinha numa arrancada de atleta, mas pára a uns três metros.

--- Puta que pariu, Tom, você vai levar uma surra! - grito, bravo, já sem paciência, quando toca o telefone.

--- Alô? Quem? Ah... sim, pois não. (É a moça da Vivo que pergunta se o Speedy ficou bom).

---  Não sei, não, moça. Fiquei a manhã toda sem conexão, mas agora não posso ver isso, estou atrasado e tenho que sair.

--- Como? Tô dizendo que não dá pra ligar o computador agora, que estou em cima da hora para um compromisso e o Tom está me olhando com a chave do carro na boca.

--- Por que deixo meu filho pôr a chave na boca? Se eu sei que chave tem bactéria? Não, minha Senhora, o Tom não é meu filho, não tenho filhos, e vai ser um inferno chegar atrasado, meu cliente não tolera isso.
 Eu sei, eu sei, moça, que é o seu trabalho, que precisa saber se está funcionando,  mas agora não dá mesmo, então escreve aí que eu não pude ver isso, porque meu cão roubou a chave do carro e está me olhando agora com aquela cara de idiota, só esperando eu desligar o telefone pra correr atrás dele!


--- Já disse que não é meu filho, moça! É um cão, um filho da puta que peguei na rua outro dia, quase morrendo, e que agora toma conta de tudo...

--- Não, minha Senhora, não a estou ofendendo, estou atrasado..! E ele não é um cão bravo, é um bem pequeno, parece o Garrincha, pernas tortas, dribla, só quatro dedos em cada pata, e é da pá virada... Um segundo, minha Sra.!

Largo o telefone e aproveito que ele está perto do fogão, distraído. Corro e fecho a porta da cozinha.

--- Agora dá aqui essa chave, Tom!

Ele circula ao redor da mesa me fazendo de palhaço. Cerco ele com as cadeiras, mas o monstrinho vai pra sala. Depois de uns minutos de correria, ele entra no lavabo.

--- Agora se fodeu, né Tom?

Fecho a porta, lavabo minúsculo..  ele larga a chave no chão e me olha com aquela cara de coitadinho. Devia dar uma surra no safado, mas lembrei do telefone...

--- Alô, me desculpe, Senhora... Não, não fui ver se o Speedy está funcionando...  O que fiz nesse tempão? Minha chave, a chave do carro... consegui pegá-la, lavabo é uma armadilha!  O quê? Não, claro que não, não estou pensando que a Senhora é palhaça.

Desligou na minha cara! Se tem algo que detesto é isso, só deus sabe quanto. Pus no gancho, abri a porta da cozinha pro Tom sair... outra vez toca a merda do telefone...

--- Olha aqui, minha Senhora, sou educado, mas não suporto que desliguem o telefone na minha cara, então, mesmo não conhecendo sua mãe, vai a puta que o pariu! Entendeu? Ahn...?! Quem? Sim, sou eu mesmo! Sei que marquei com o Senhor, me desculpe, já estou saindo... Se eu sei que horas são? Sim, é que me enrolei um pouco, primeiro o Tom roubou a chave do carro, depois foi a moça do Speedy...  O quê? Não, absolutamente... Claro que não penso que o Senhor é um palhaço, é que...

Não era mesmo meu dia, outro telefonema desligado na minha cara, duas vezes em dez minutos!

Respirei fundo, o  sol invadia a cozinha, dia lindo... o Tom na janela pelo lado de fora, com os lábios erguidos, jeito de sorrir, me convidando pra passear...

Dia aziago desde que acordei...

--- Pera aí, Tom! Só me dá um minutinho pra pegar o alicate e cortar o fio do telefone antes que me arrependa.