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28 de set. de 2016

Esperanza

Não se encontra na razão toda a explicação do desejo, mas agregado à alma a poeira das estradas, como as estrelas, transformam a maneira de ver o outro.

Era um fim de outono, dez da noite, último dia do ano, a Ruta 3 deserta. O sol enorme e vermelho do poente não permitia focar à distância uma mancha escura, que podia ser uma ave ou um cão.

Depois de uma hora de caminhada - nem era um cão, nem uma ave, mas a traseira de um automóvel preto parado no meio da pista. E aquele não era um solitário carro quebrado, só o último de uma fila de exatos vinte e seis, e todos vazios.

Naquele momento um estranho sibilo metálico se misturava às rajadas de vento, mas no entorno não havia nada, quando toca a campainha de um celular sobre o painel de um dos carros. Hesitei em atender, mas aquilo insistia tanto que acabei pondo o sujeito no ouvido. E alguém ouviu o meu “alô” com um suspiro, e foi só e tudo o que me foi permitido, não entendi nenhuma palavra até o aparelhinho se calar por conta própria.

O céu escureceu de vez. E se a noite nunca atrasa, aquela veio na hora e com chuva torrencial. Não ia mesmo chegar a lugar algum com tanta água, que me acomodei no banco traseiro daquele carro.

Com o barulho dos trovões o estranho ruído desapareceu. Ou, se, exaurido, embarquei rápido para algum lugar num outro mundo, que não percebi nada até abrir os olhos na primeira manhã do ano seguinte.

O céu era todo anil, o sibilo voltou mais forte, e não havia mais nenhum carro além do que eu estava. Pensei em anotar a placa, que chegando ao vilarejo talvez alguém de lá pudesse me explicar o que acontecia, mas o carro não tinha placa. E se no meu mapa dizia que faltavam só alguns quilômetros, certeza que andei muito mais, e o tal ruído só se calou quando cheguei ao único posto de combustível da região, na entrada da pequena comunidade conhecida como Esperanza, que não tinha mais do que trinta habitantes.   

Mas não havia ninguém no posto, nem na hospedaria.

A estalagem tinha as portas escancaradas. Bati palmas, assobiei, cansei de chamar por alguém. Esperanza fora abandonada. Sobre o balcão do refeitório, uma cesta com pão amanhecido e um café frio numa garrafa térmica. Peguei emprestado um pão e sentei junto a uma mesa próximo à janela.

Estendi meu mapa, a próxima vila era muito distante e voltar também não era pouco. Absorto, olhando a ventania de areia pela vidraça, como uma pipa sem rumo num vento louco um menino ziguezagueava com a mão nos olhos. Larguei tudo na mesa e corri em sua direção. Ele agarrou minhas pernas chorando muito. Abracei-o e entrei com ele na estalagem.  

--- Como se chama? – perguntei.  
--- Juan – disse, soluçando. 

--- Que foi, Juan, que está acontecendo aqui? – passando a mão nos seus cabelos tentando acalmá-lo.
--- Eu moro com minha avó, foi ontem de manhã. Ela viu da janela uns caminhões grandes e uns homens de uniforme, mandou eu ficar quieto, que ia ver o que era aquilo, e não voltou.

--- E seus pais?
--- Não tenho pai, sou cego, minha mãe mora em outra cidade. Ontem, enquanto esperava pela minha avó, ouvi gente gritando e chorando, o barulho alto dos motores dos caminhões, fiquei com medo e me escondi, quando entraram em casa não me acharam.

Juan tinha a pele clara, cabelos quase brancos, olhos azuis como de uma pintura, e talvez uns dez anos, e assim que se acalmou, me perguntou onde estava sua avó e quem eu era.

Não pude lhe responder com a precisão que certamente desejava, mas disse se quisesse encontrar sua avó teria que vir comigo e andar uns três dias (na hora decidi voltar), e perguntei se tinha alguma comida na sua casa.

Quase não tinha nada, peguei algumas poucas coisas, um cobertor, uma garrafa de água, e saímos rápido dali, mas me perguntei como alguém podia morar naquele casebre sem calefação, quando no inverno Esperanza tem temperaturas abaixo dos trinta graus? Em Três Cerros é a única referência humana em centenas de quilômetros, com sua hospedaria aquecida e o posto de combustível.

Apesar de não enxergar Juan tinha algum sentido que desconheço. Me acompanhava sem tropeçar, não reclamava nem fazia perguntas. As que eu lhe fiz não sabia responder, mas lembrou que há algum tempo, desde que surgiu no campo aquele estranho ruído metálico, não se podia mais beber a água que vinha do rio, e que sua avó tinha uma vaca e umas galinhas, que foram ficando magrinhas e acabaram morrendo.

Fiquei pensando no que disse. E se enquanto tinha sol, apesar do vento, ainda fazia algum calor, à noite a temperatura caía a uns três ou quatro graus, O dia se fora, e antes do breu total me afastei da pista, cortei uma touceira de capim e fiz ele deitar e se enrolar no cobertor. Dormiu na hora. Rezei para não chover, só tínha um abrigo de chuva.

Dia seguinte, outra vez sem cruzar com uma única alma, andamos umas dez horas até desaparecer da vista a imagem dos Três Cerros (o acidente geográfico que consta dos mapas ingleses desde o Sec. XVI). Descansamos e comemos um pouco antes de seguir. Se aguentássemos a jornada dormiríamos mais uma noite e chegaríamos a Jaramillo no fim do outro dia.

Anos atrás estivera naquelas paragens, mas desta vez, apesar da sempiterna devastadora solidão do deserto, havia alguma coisa muito errada com aquele lugar, nada ali se movia além do vento.

Acordamos cedo na manhã seguinte e andamos novamente o dia todo, eu estava exausto. Apesar da aparência frágil, ele era selvagem, acostumado a coisas inverossímeis, e não demonstrava cansaço, nem aborrecimento, quando no começo da noite, enfim, chegamos a Jaramillo.

Uma semana sem ver ninguém, a primeira coisa que fiz foi entrar com ele numa lanchonete. Juan parecia feliz em ouvir a voz de pessoas, e enquanto comia me perguntou sobre sua avó. O que podia fazer se não levá-lo a uma delegacia de polícia e relatar tudo o que vi e senti?

--- Esperanza? Esse lugar não existe, nunca existiu! De onde você é? – me perguntou o policial.

Tentei argumentar que conhecia aquele lugar, que já estivera lá num inverno. Ele me disse que estava sonhando, que era melhor pra mim esquecer tudo aquilo e ir embora, que eles já tinham problemas demais na região.

Quando se assegurou que Juan era cego mesmo, disse que o levaria para sua casa aquela noite, que no dia seguinte o encaminharia para uma tal Fundação do Menor, e que iam procurar o paradeiro da sua avó.

Naquela mesma noite consegui uma carona de um funcionário da estatal petrolífera, mas tudo que lhe perguntei ficou no ar, ele não falava nada sobre o assunto. De madrugada cheguei a Rawson, daí o reencontro com a civilização.

Foi a última vez que estive por lá, mas não estava sonhando, aqueles automóveis sumiram enquanto dormia. E como esquecer daquele menino? Tampouco soube o que fizeram com aquelas pessoas.

Pela descrição de Juan - água contaminada, os animais da avó que definharam, a gritaria, homens de uniforme e o barulho dos caminhões, tenho a impressão que foi o exército que retirou às pressas os moradores de Esperanza e isolou aquela área.

Não há verdade que não se duvide, mas exatamente naquelas coordenadas (latitude 48º 07´- longitude 67º 38´), concentra-se o maior buraco de ozônio do planeta. 




21 de fev. de 2016

bilhete só de ida


O mundo corporativo nos obriga a comprar e comprar, quem não participa vai sendo posto de escanteio. Já não se consegue mais ativar um Cartão de Crédito pelo telefone fixo, nossa voz é suspeita de fraude, o número do telefone fixo pode ter sido garfado, e para o banco eu posso não ser eu. 


Preencher um formulário de identificação pela net, pode só funcionar se tivermos um Celular para receber um SMS e dar continuidade na operação.


Na Idade Média, para se entrar num feudo, primeiro vinha sozinho o identificador para que pudessem abaixar a ponte elevada para os demais. Os Condomínios atuais substituíram as pontes elevadiças por clausuras vigiadas por porteiros e câmaras, até que nos identifiquem, mas estas, já se mostram falhas e estão sendo substituídas por sistemas de identificação à distância, sem porteiros.


Automóveis estão sendo testados sem motoristas, há estudos para que aviões possam fazer vôos intercontinentais sem pilotos, e em certas regiões drones já fazem entregas.


O que é o homem, esse que caminha pra não sair do lugar (sic), cuja identificação eletrônica é mais aceitável que sua presença fisica?


Esse bípede falante, que aceita viver cercado de Regras que julga inteligentes, inventadas pela ganância sem limites de filósofos do tecnicismo,  tecnocratas que comandam corporações, políticos que dirigem países -, possivelmente nem perceba que estão excluindo o humano do ser ‘humano’, e  tudo indica que nesse trem só há bilhetes “one way”.

9 de nov. de 2015

'VIRTUOSES' E 'GÊNIOS'

‘Virtuoses’ e Gênios.

O mundo civilizado, que presta alguma atenção à arte, se encanta com os ‘virtuoses’ – esses que chegam a quase perfeição no que escolheram como forma de enganar o tempo (ou foram escolhidos), que além do presente divino, ou genético, chamado talento, têm a incomum força de vontade até o sacrifício, centrados que são nos estudos e objetivos.

E quando se pensa em ‘virtuosidade’ é comum a conexão com musicistas, mas também existe na literatura, ballet, pintura e escultura, porque por melhor que sejam, nenhum expoente economista, publicitário, arquiteto etc, se enquadra no termo, que não se aplica a outras áreas do conhecimento, nem a arte aplicada.

A maioria dos ‘virtuoses’ se dão bem no mundo real, que aprecia suas técnicas e sensibilidades, e retribui lotando teatros, comprando seus livros ou pinturas, cujo valor de troca é efetivo. Claro que podem também ter alguma genialidade, mas ainda que quebrem protocolos em certas ocasiões, não são ‘gênios’.

Não estão à frente do seu tempo como os ‘gênios’, que por romperem com estruturas conhecidas e pré-estabelecidas são mal compreendidos, quando não mal vistos, chamados de loucos ou rejeitados,  e seus valores de troca são compatíveis com essa distância entre o que fazem e o que deles se entende, isso desde que a palavra existe. Podem ser admirados, mas não existe ‘gênio’ bem de vida no sentido monetário.

Quando são músicos ou musicistas, ‘gênios’ não elegem um único instrumento; se escrevem, não só escrevem. O mesmo se aplica aos que pintam ou esculpem – e todos têm em comum além do conhecimento, uma certa falta material e uma dose de loucura pela busca incessante não pela perfeição, mas pelo desconhecido.

Na música houve e há muitos ‘virtuoses’, mas quantos Beethovens? (Hermetos?) Na literatura, poética filosófica, quantos F.Pessoa ou Nietzsche? Nas artes plásticas há muitos ‘virtuoses’, poucos como Miquelângelo, Rembrant, Canova, mas nenhum como Van Gogh, Da Vinci ou Claudel. E ainda que não se adapte bem o termo, incluiria no cinema os ‘virtuoses’ Tarkovski, Kurosawa, Bergman, Truffault, e mais uns tantos, mas nenhum como Fellini ou Wells.

Haverá quem não concorde sobre o que penso e sobre os citados e não citados, não é aritmética, apenas uma reflexão sobre a diferença que normalmente não se faz entre a sensibilidade aliada à técnica esmerada e os que têm nas estrelas a inspiração. 

7 de nov. de 2015

ESTRADAS QUE NÃO LEVAM A PARTE ALGUMA

Grande parte dos seres humanos vive o martírio da solidão, estejam sozinhos ou não.


Procuram suas metades num amor incondicional, devoram livros de auto-ajuda buscando uma segurança vendida à granel, se embrenham nas redes virtuais à procura de ouro e só encontram imitações, viajam nos sonhos marginais da virtualidade ou da ficção, porque perseguem a metade ideal da laranja. 


E ainda que muitos duvidem da existência dessa metade ideal, misturam-se e igualam-se aos demais nessa busca inócua, dado que essa descrença sem plena  convicção pesa menos que a necessidade.


Se é verdadeiro que nenhum ser humano é igual a outro, também é que todos são absolutamente sós, do dia que nasceram até o fim das suas vidas, e a sensação de conforto por se sentirem acompanhados de seus pares, filhos, pais etc., não é suficiente para a plenitude e em tempo integral.


É da espécie humana o hábito gregário, porque uns precisam dos outros para a sobrevivência, o que não traduz exatamente num bem-estar permanente, conceito bem diferente da inexistente felicidade permanente.


Porque nada do outro ou do coletivo chega à “alma” de forma duradoura, se não há consciência do ‘estar só’, essa condição intrínseca de quem vive, mas que não leva ninguém ao martírio da solidão e às estradas místicas dos ideais utópicos do prazer e felicidade.

Antes  do "eu sou mais eu.... o "eu sou só"


17 de mai. de 2015

O BALDE DE GUDES CHAMADO PIB

O nome dele é Luzita, só mais um garoto da minha rua, que dia desses me perguntou (ele ouvia falar todos os dias e não entendia), o que era o PIB?

Então eu disse:

-- Essa é fácil, mas se o Cristiano Ronando é melhor que o Messi, isso eu não sei.

Pensei um pouco antes de começar e falei de uma vez:

-- PIB é uma coisa simples, Luzita, se tudo o que o país faz e os impostos associados à produção fosse trocado por bolinhas de gude e colocado num balde, esse balde se chamaria PIB (produto interno bruto).

-- E é com essa bolinhas que o Estado pagará os investimentos e outras obrigações legais.

-- Se ao fim de um período, sobrarem bolinhas, o país cresceu, coisa que todos sentirão, além dos números, pela maior oferta de trabalho e salários com maior poder de compra.

-- Não é necessário ser economista e entender a linguagem cifrada com base na matemática avançada, misturada à magia de se fazer resultados que se deseja, pra saber se vamos bem ou não.

-- Agora, presta atenção, Luzita. Cada bolinha destas sempre está associada a algum tipo de trabalho, então quando alguém ganha um centavo de qualquer outra maneira, tira indevidamente algumas bolinhas do balde, que é propriedade de todos. Em outras palavras, é o mesmo que dizer: esse alguém está roubando dos verdadeiros donos.

-- Muito diferente de ladrão de carro, de botijão de gás, de supermercado ou de bancos. Essa vontade malévola de enriquecer sem trabalho e grandes riscos, que inspira atenção além do corpo físico, armada de tacapes hodiernos e respaldada sempre por alguma espécie de poder, mata aos poucos os muitos que levam nas costas a nação.

--  Além disso, esse roubo que lesa a pátria não é só dos que enfiaram a mão, mas também dos gastos errôneos e desnecessários do Estado,  cujas bolinhas do balde correspondentes aos impostos, acrescido de dos outros tributos, não dão conta de cuidar bem desse precioso balde, que tem que ceder mais outras tantas bolinhas que não devia nem podia, e que o "economês" oficial sabe que aritmética sem magia não pode explicar.

-- Entendeu, Luzita?

O garoto ficou calado me olhando com um ar estranho, demorou um pouco e disse:

 -- o Cristiano Ronaldo joga muito melhor que o Messi.

12 de ago. de 2014

PATAGÔNIA

foto de Ângela Loij
















Uma foto de capa da National Geographic de um Yaghan coberto de rugas me fez ir às terras do fim do mundo, como é conhecido o arquipélago da Terra do Fogo.

Era outono e logo entendi de onde vinham as marcas daquele índio. Depois de Rawson e Trelew já ventava e fazia muito frio, que só não incomodava tanto porque a vontade de chegar era maior, mas esse chegar é só uma maneira de dizer, porque não tinha onde chegar, só tinha um ir até onde houvesse terras pra pisar.

E ficaram pra trás, Puerto Desejado, Cabo Blanco, Três Montes, e Paraíso, esta minúscula localidade com menos de vinte pessoas, referência e último posto de abastecimento antes do Estreito de Magalhães.

Ali terminava o continente americano. A travessia pelo lado chileno, em Puerto Aymont, fazia o barco jogar como uma caixa de fósforo com o encontro das águas mais altas do Pacífico com o Atlântico.

Rio Grande, Ushuaia, canal de Beagle e a ilha de Nasvarino também ficaram pra trás, e terra pra ir não tinha mais, adiante o Oceano Glacial Ártico e o Pólo Sul.

Todo retorno é sempre difícil. O frio, agora sim, era quase insuportável e como nos mapas da América parecia que tudo era subida, mas por alguma estranha atração dessas paisagens desoladoras não foi a única vez que estive nessas terras do fim do mundo.

Esqueci tudo de química, a maioria das fórmulas de matemática; apaguei professores, parentes, amigos de escola, policiais desastrados, talvez porque nada disso tenha sido importante, mas do maior e menos habitado deserto do planeta, dessa primeira estada, bem guardadas ficaram duas coisas: o cão foguino, que me acompanhou por dias, e o encontro com Ângela Loij.

Ambos viraram pó, mas não é pouco lembrar deles – o que o cão me disse não sei escrever, já Angela, com seus olhos rasgados e azuis, o peso dos seus sabe-se lá quantos anos, curvada e muito enrugada, era a última descendente dos Selk´nans, e num confuso  espanhol contou como os brancos mataram seu povo - lembrando dos pais, irmãos, filhos e netos, sabendo que não havia mais ninguém além dela e da memória de maldades inconcebíveis. Peron tinha acabado de voltar do exílio, e ser eleito novamente o presidente da Argentina. Pinochet tinha acabado de se tornar o presidente do Chile, mas eu não sei nada disso e não pus datas como ponho esparadrapos em qualquer arranhão, que minha  memória não dói.

1 de ago. de 2014

Arquitetura Pós-Moderna e o Admirável Mundo Novo

ESCADA1

De alguma forma o modernismo na arquitetura pretendeu socializar a habitação e a arte, valorizar os espaços coletivos, baratear o custo das obras retirando o supérfluo, enfim utilizando-se de recursos tecnológicos dividir melhor o “bem-estar”.

E logo me recordo da ficção “O Admirável Mundo Novo” do Aldous Huxley, que mostra o homem mais feliz quando sem contestação nasce e vive pra cumprir funções específicas, aonde ninguém puxa o tapete de ninguém nem inveja o outro, algo que imagino seja parecido com a divisão social num formigueiro.

Mas tenho certeza que o autor não propôs este caminho nem em sonho porque chorou quando descendo do avião viu Brasília à época da sua inauguração.

Obviamente é consenso que todos tem que ter um teto decente, meta de qualquer governo que se preze, e os projetos modernistas foram executados sistematicamente no século passado, não obstante a maioria ser capenga nos seus princípios fundamentais. Temos isso aqui no Brasil e também na maior parte do mundo.Talvez ao longo dos anos algumas das idéias que fundamentaram o modernismo na arquitetura tenham se perdido, quando o “igual” do ideário se transformou no “igual” mal feito, que visou metas políticas ou de lucro fácil.

E assim, como nada é eterno, a arquitetura modernista foi dando lugar outras formas e pensamentos, que vai ocupando esse espaço meio vago, sem uma ordem formal, e por também não ter um nome apropriado é chamado de arquitetura pós-moderna, essa que tem várias caras — desconstrutivista, brutalista, lúdica, futurista etc.O que mais isola e exclui o indivíduo é a desigualdade econômica, não a diversidade e a liberdade de expressão em qualquer das suas formas.

Não seríamos nem melhores, nem mais felizes numa sociedade como a ficção do Huxley, isso na prática é puro fascismo. O homem não é uma barata e não se adapta bem às situações que lhes são adversas por longa data. Ao Estado pode caber o pensamento, que há mais dignidade morar num conjunto habitacional, seja qual for, que viver sob uma ponte. No entanto essa “dignidade” vista à distância não traduz o grau de felicidade do indivíduo.

Os conceitos básicos do modernismo impregnados até hoje nos mecanismos públicos sempre consideraram o homem no coletivo, até porque é difícil ver isso de outra forma, mas cada qual é único nos desígnios da sua vida e não é factível, sem seu consentimento, a qualquer outro escrever o seu destino. Por isso a maioria não privilegiada ainda prefere morar nos seus “puxadinhos” que nos conjuntos “impessoais” feito às pressas.

Outra coisa são os mega-projetos modernistas, caso da cidade planejada de Brasília, que ao fim da obra perguntaram ao urbanista Lúcio Costa, criador da cidade, se ele não sabia que os milhares de “candangos” ficariam por ali mesmo nas cidades satélites (cujo conceito de moradia era o oposto da modernidade). Ele respondeu que Brasília tinha casas pras pessoas morarem, e que este era um problema de revolução e não de arquitetura.

Como se ele não soubesse que a realidade era essa! O que eu penso disso? Penso que tudo é muito difícil, vivemos numa sociedade injusta, desigual nas oportunidades, e nada que é feito no papel por meia dúzia de gatos vai ser a solução para as muitas dúzias de ratos.

Arquitetura da Miséria


Costa Amalfitana, estradinha pra Vítrio, encosta apinhada de pequenas casas e pés de limão, uma das paragens mais lindas do mundo.



Campo Limpo em SP, estrada de M´Boy Mirim, amontoado de pequenas casas cinzas, cor da miséria, uma das paragens mais horríveis do mundo.



Com a sensibilidade que vai além da visão embotada pelo preconceito, e sem o sincretismo simplório que mistura tudo, a arquitetura da miséria tem lá suas semelhanças com a Costa Amalfitana. Como aquela, também não segue as normas fixadas pelos doutos, que criam os parâmetros do urbanismo – é anárquica em todos os sentidos, porque além de não seguir as regras formais da construção, nasce de uns riscos no chão, e sobe rápido porque é simples, tudo perfeitamente de acordo com um único parâmetro — a necessidade e a falta de recursos.



Ao contrário da arquitetura formal, onde o engenheiro e o arquiteto, além, claro, do proprietário, que quebram a cabeça pra criar um dormitório a mais, levando em conta os acessos, as leis etc., a arquitetura da miséria é extremamente dinâmica, modificada a cada rebento que nasce, quase uma “obra aberta”. Houvesse uma palavra que definisse esse estilo sem estilo, poderia ser a “arquitetura do puxadinho”.Não dá certo escada por dentro, come o espaço da TV? Sem problemas… escada pra fora. Chove quando sobe? Sem problemas… mais um “puxadinho”.



Mais original que as obras da realeza, esse conjunto cinza de blocos de cimento e telhas de fibro-cimento, sem acabamento, sem detalhes, que sobe e desce montanhas, é horrível no seu todo não por falta de criatividade.



Imagino se em vez de se colocar tapumes nas avenidas pra esconder os “puxadinhos”, como fez o governador Carlos Lacerda no Rio de Janeiro, o Estado transferisse recursos inúteis, poderia começar extinguindo por exemplo o Senado. Ou os bancos deixassem de ser tão ‘bancos’ e destinassem uma parte ínfima dos seus abusivos lucros.



E todos os milhares de “puxadinhos” do país poderiam ter paredes rebocadas e pintadas com a cor da vontade de cada um… Teríamos uma estética anárquica, que fugiria da mesmice, única no mundo dado as proporções.



Cor é alegria, bem-estar, transforma as pessoas, e isso não é uma gozação, muito menos uma piração, mas alguém vai dizer que é tampar o sol com a peneira, que o problema é muito mais em baixo num país que falta tudo, como se eu não soubesse.



Num Estado de parlamentares e governantes meia-bocas estamos muito longe de substituir os “puxadinhos” por algo mais digno, não obstante há leis de incentivo à cultura, museus, estátuas em praças públicas. O que é esse esforço estético se não para o deleite da alma humana? Por que então não colorir e dar vida aos “puxadinhos”?

19 de jul. de 2014

ARQUITETURA --- ESTÉTICA E FUNCIONALIDADE

Qual a finalidade primeira da arquitetura - dar ao homem abrigo das intempéries, do calor ou frio excessivos ou presenteá-lo com uma estética inovadora?

Questão obviamente muito ampla e subjetiva, porque cada homem é absolutamente único, e também porque o belo não é um conceito universal (só imaginar a nota que daria um jurado pigmeu a uma candidata norueguesa a miss universo).

Não obstante, quem consegue passar do básico e chegar à uma moradia propriamente dita, certamente vai enfeitá-la com objetos e pintá-la com as cores do seu agrado, o que me faz pensar que, de alguma maneira, estética faz parte da vida de todos, ainda que por vezes não saia dos sonhos ou não caiba no bolso da maioria.

E se é uma casa pequena, uma superestrutura ou uma obra institucional, por mais original, surpreendente ou arrojada que seja, não cumpre sua função básica se chover dentro. E não é diferente se o ambiente for muito frio, úmido ou quente demais, que acaba expulsando o indivíduo. 

Aberturas mal posicionadas e e mal pensadas, só podem ser corrigidas com o uso de fontes externas de energia, e em alguns casos nem é possível.

E nessa questão térmica, a maioria das obras é inadequada, mesmo as chamadas "inteligentes" - que com tecnologia de ponta cria ambientes confortabilíssimos - são no fundo muito "burrinhas", uma vez que o planeta tem recursos finitos, e inteligente é o que guarda e/ou economiza energia, não o que esbanja. 

Por isso, arquitetura é mais que teoria, e não deve só surpreender fugindo do "pão de forma", mas ter presente que a pele não se engana, e o sentir-se bem não é só exclusividade da alma, ou a arquitetura só cumpriria seu papel no papel ou nos vetores hiper-realistas da telinha iluminada. 

8 de nov. de 2013

ARQUITETURA E OS ARQUITETOS

Na atualidade só há três tipos de arquitetos:
-- Os que fazem os megaprojetos cheios de tecnologia, que enchem as mídias e encantam o mundo, quase sempre financiados pelo dinheiro público ou de algum esdrúxulo magnata.
-- Os que, funcionários de grandes escritórios projetam edifícios comportados para incorporadoras, e vez por outra enfiam umas firulas e brilhos, que os tornam super-originais, iguaizinhos à maioria.
--  Por fim, habilidosos ou não, criativos ou não, talentosos ou não... os demais, a maioria da multidão que escolheu como profissão a arquitetura.

Que se empregados na área pública, passam a vida fazendo nada, caso sejam café-pequeno; ou, se chefes, pondo e tirando o paletó da cadeira.
Que se empregados na área privada vivem fazendo o que não desejam.
Por fim, os autônomos, estes que se esforçam para serem percebidos, mas limitados pela timidez dos investimentos resignam-se às pequenas obras, e não raras vezes ficam nos sonhos dos rascunhos ou maquetes.

Claro que nada disso é exato, nem há nenhuma novidade, com a medicina, p.ex. é mais ou menos a mesma coisa, onde os expoentes não saem da mídia, mas o restante ou é empregado dos Planos de Saúde ou servidor público.

Mas há diferenças - arquitetura nem salva, nem mata! É desafio, arte que envolve literalmente o ser humano, e não creio que alguém que tenha escolhido esta profissão, cuja característica principal não é a repetição, se sinta equilibrado fazendo nada, ainda que esse nada não seja verdadeira e exatamente o vazio.

"Vai construir? Comprou uma casa velha, um apartamento caindo aos pedaços... consulte sempre um arquiteto!" Li isso em algum lugar que não era o para-choque de um caminhão, talvez no vidro traseiro de quem andava na minha frente, não lembro e não importa, aviso inútil que não muda nenhum destino. Por que? Ora...

Por que vou gastar uma grana se eu posso fazer sozinho?
Ops, eu tenho um amigo que é engenheiro e pode dar uma olhada...
Minha prima já mexeu com obra, ela leva jeito...
Nem morto! Na última vez que usei um arquiteto quase saímos no tapa...
Jo soy un arquitecto nacido...

Se os autônomos escapam disso, dão graças aos céus que têm algo pra fazer, mesmo que esse algo seja um quase nada em arquitetura, e poderão dar de comer aos seus cães ou filhos, caso os tenham, 

Dia desses conversei por telefone com um sujeito que vendia tumbas... Ops, tumbas!? Mais ou menos isso, ele vendia espaços, coordenadas de um novo cemitério.

Falei que deixei uma ordem para ser cremado, que só ia precisar de uma urna, e temporária. Ele riu e disse que urna ele não vendia. Nem vi a cara do sujeito, mas era um tipo simpaticíssimo, e falamos sobre outras coisas até ele dizer que era um corretor da morte, mas pra eu não confundir com 'corretor de morte', que era arquiteto e cansou de não fazer nada durante anos numa construtora, quando tomou a decisão de fazer alguma coisa útil.


26 de out. de 2013

ARQUITETURA MODERNA, PÓS-MODERNA, O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO





ARQUITETURA MODERNA, PÓS-MODERNA, O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


E logo me recordo da ficção “O Admirável Mundo Novo” do Aldous Huxley, que mostra o homem mais feliz quando sem contestação nasce e vive pra cumprir funções específicas, aonde ninguém puxa o tapete de ninguém nem inveja o outro, algo que imagino seja parecido com a divisão social num formigueiro. 

Mas tenho certeza que o autor não propôs este caminho nem em sonho porque chorou quando descendo do avião viu Brasília à época da sua inauguração.


Obviamente é consenso que todos tem que ter um teto decente, meta de qualquer governo que se preze, e os projetos modernistas foram executados sistematicamente no século passado, não obstante a maioria ser capenga nos seus princípios fundamentais. Temos isso aqui no Brasil e também na maior parte do mundo.Talvez ao longo dos anos algumas das idéias que fundamentaram o modernismo na arquitetura tenham se perdido, quando o “igual” do ideário se transformou no “igual” mal feito, que visou metas políticas ou de lucro fácil.


Assim, como nada é eterno, a arquitetura modernista foi dando lugar outras formas e pensamentos, que vai ocupando esse espaço meio vago, sem uma ordem formal, e por também não ter um nome apropriado é chamado de arquitetura pós-moderna, essa que tem várias caras — desconstrutivista, brutalista, lúdica, futurista etc.


O que mais isola e exclui o indivíduo é a desigualdade econômica, não a diversidade e a liberdade de expressão em qualquer das suas formas.


Não seríamos nem melhores, nem mais felizes numa sociedade como a ficção do Huxley, isso na prática é puro fascismo. O homem não é uma barata e não se adapta bem às situações que lhes são adversas por longa data. Ao Estado pode caber o pensamento, que há mais dignidade morar num conjunto habitacional, seja qual for, que viver sob uma ponte. No entanto essa “dignidade” vista à distância não traduz o grau de felicidade do indivíduo.


Os conceitos básicos do modernismo impregnados até hoje nos mecanismos públicos sempre consideraram o homem no coletivo, até porque é difícil ver isso de outra forma, mas cada qual é único nos desígnios da sua vida e não é factível, sem seu consentimento, a qualquer outro escrever o seu destino. Por isso a maioria não privilegiada ainda prefere morar nos seus “puxadinhos” que nos conjuntos “impessoais” feito às pressas.


Outra coisa são os mega-projetos modernistas, caso da cidade planejada de Brasília, que ao fim da obra perguntaram ao urbanista Lúcio Costa, criador da cidade, se ele não sabia que os milhares de “candangos” ficariam por ali mesmo nas cidades satélites (cujo conceito de moradia era o oposto da modernidade).Ele respondeu que Brasília tinha casas pras pessoas morarem, e que este era um problema de revolução e não de arquitetura. 


De alguma forma o modernismo na arquitetura pretendeu socializar a habitação e a arte, valorizar os espaços coletivos, baratear o custo das obras retirando o supérfluo, enfim utilizando-se de recursos tecnológicos dividir melhor o “bem-estar”.


Como se ele não soubesse que a realidade era essa! O que eu penso disso? Penso que tudo é muito difícil, vivemos numa sociedade injusta, desigual nas oportunidades, e nada que é feito no papel por meia dúzia de gatos vai ser a solução para as muitas dúzias de ratos.


16 de out. de 2013

ARQUITETURA DA MISÉRIA



Costa Amalfitana, estradinha para Vítrio, encosta apinhada de pequenas casas e pés de limão, uma das paragens mais lindas do mundo.Campo Limpo em São Paulo, estrada de M´Boi Mirim, amontoado de pequenas casas cinza, cor da miséria, uma das paragens mais horríveis do mundo.


Com a sensibilidade que vai além da visão embotada pelo preconceito, e sem o sincretismo simplório que mistura tudo, a arquitetura da miséria tem lá suas semelhanças com a Costa Amalfitana. Como aquela, também não segue as normas fixadas pelos doutos que criam os parâmetros do urbanismo. É anárquica em todos os sentidos, porque também não segue as regras formais da construção. Nasce de umas conversas, uns riscos no chão, e sobe rápido porque é simples - tudo perfeitamente de acordo com um único parâmetro - a necessidade e a falta de grana.


Ao contrário da arquitetura formal, em que o engenheiro e o arquiteto, além, claro, do proprietário, quebram a cabeça pra criarem um dormitório a mais, levando em conta os acessos, as leis etc., a arquitetura da miséria é extremamente dinâmica, quase uma “obra aberta”, modifica-se rapidamente a cada novo rebento.


Houvesse uma palavra que definisse esse estilo sem estilo, poderia ser a “arquitetura do puxadinho”. Não dá certo escada por dentro, atrapalha o espaço da TV? Sem problemas... escada pra fora. Ah... chove quando sobe? Sem problemas... outro “puxadinho”.Mais original que as obras da realeza, esse conjunto cinza de blocos de cimento sem acabamento e telhas de fibro-cimento, sem detalhes, que sobe e desce montanhas, é horrível no seu todo não por falta de criatividade, falta uns toques, falta cor!


Imagino se em vez de se colocar tapumes nas avenidas pra esconder os “puxadinhos”, como fez o Lacerda no Rio de Janeiro em certa ocasião, o Estado transferisse recursos inúteis gastos com a existência, por exemplo, do Senado, dispensável na maioria das democracias. Ou das estradas, viadutos, açudes que nunca existiram. Ou os bancos resolvessem deixar de ser tão "unhas de fome" e fizessem um esforcinho...


Imaginem todos os milhares de “puxadinhos” do país com paredes rebocadas e pintadas com a cor da vontade de cada um... Teríamos uma estética anárquica, que fugiria da mesmice, que, dado as proporções, seria única no mundo.


Cor é alegria, bem-estar, transforma as pessoas, e isso não é uma gozação, muito menos uma piração, mas alguém vai dizer que é tampar o sol com a peneira, que o problema é muito mais embaixo num país onde falta tudo, como se eu não soubesse.

Obviamente que num Estado de parlamentares e governantes meias-bocas estejamos muito longe de substituir os "puxadinhos" por algo mais digno. Não obstante há leis de incentivo à cultura, museus, estátuas em praças públicas - o que é esse esforço estético se não para o deleite da alma humana? Então, por que não, além de melhorar a segurança destas cidades dentro das cidades, também colorir e dar vida aos "puxadinhos"?

14 de out. de 2013

O CELULAR NA ARQUITETURA E ENGENHARIA

O CELULAR NA ARQUITETURA E ENGENHARIA
Fiquei impressionado numa obra quando vi os pedreiros programando seus celulares. Eles põem músicas, põem créditos, jogam, mas não sabem Pitágoras, tabuada, nem ler plantas.


Habilidade é algo curioso, como inteligências múltiplas. Bernard Shaw disse que não entendia nada de números, nem fazendo a prova dos nove tinha certeza do resultado, mas sobre o idioma que escrevia só ia ao dicionário quando precisava de um terceiro ou quarto sinônimo.


O mundo é cheio de inutilidades as quais abandonamos por não ver sentido algum, mas estranho não são as escolhas que o inconsciente faz, que tornam mais fáceis isso que chamamos de habilidades, estranho são as inabilidades com o trabalho que se escolhe.


Um escritor tem que conhecer e gostar das palavras, ninguém pode ajudá-lo nessa tarefa. Difícil imaginar um livro escrito por quem detesta a escrita.Da mesma forma trabalhar numa obra, seja pedreiro, marceneiro, armador, serralheiro, é preciso conhecer um pouco mais que a aritmética básica que serve à maioria (inclusive ao escritor), mas não ao profissional da construção. 

E o que se vê é algo muito diferente -- estão lá porque lá estão... e de um jeito ou de outro são os que constroem, que destroem.


Mal remunerados que são, jogam dinheiro fora que não veem. Falta escola, claro, mas fico pensando se aprender a usar nível, esquadro e prumo, um pouco de tabuada, que é o básico na engenharia e arquitetura, não teria um jeito de vir disfarçado num joguinho qualquer de um Celular.