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9 de nov. de 2015

'VIRTUOSES' E 'GÊNIOS'

‘Virtuoses’ e Gênios.

O mundo civilizado, que presta alguma atenção à arte, se encanta com os ‘virtuoses’ – esses que chegam a quase perfeição no que escolheram como forma de enganar o tempo (ou foram escolhidos), que além do presente divino, ou genético, chamado talento, têm a incomum força de vontade até o sacrifício, centrados que são nos estudos e objetivos.

E quando se pensa em ‘virtuosidade’ é comum a conexão com musicistas, mas também existe na literatura, ballet, pintura e escultura, porque por melhor que sejam, nenhum expoente economista, publicitário, arquiteto etc, se enquadra no termo, que não se aplica a outras áreas do conhecimento, nem a arte aplicada.

A maioria dos ‘virtuoses’ se dão bem no mundo real, que aprecia suas técnicas e sensibilidades, e retribui lotando teatros, comprando seus livros ou pinturas, cujo valor de troca é efetivo. Claro que podem também ter alguma genialidade, mas ainda que quebrem protocolos em certas ocasiões, não são ‘gênios’.

Não estão à frente do seu tempo como os ‘gênios’, que por romperem com estruturas conhecidas e pré-estabelecidas são mal compreendidos, quando não mal vistos, chamados de loucos ou rejeitados,  e seus valores de troca são compatíveis com essa distância entre o que fazem e o que deles se entende, isso desde que a palavra existe. Podem ser admirados, mas não existe ‘gênio’ bem de vida no sentido monetário.

Quando são músicos ou musicistas, ‘gênios’ não elegem um único instrumento; se escrevem, não só escrevem. O mesmo se aplica aos que pintam ou esculpem – e todos têm em comum além do conhecimento, uma certa falta material e uma dose de loucura pela busca incessante não pela perfeição, mas pelo desconhecido.

Na música houve e há muitos ‘virtuoses’, mas quantos Beethovens? (Hermetos?) Na literatura, poética filosófica, quantos F.Pessoa ou Nietzsche? Nas artes plásticas há muitos ‘virtuoses’, poucos como Miquelângelo, Rembrant, Canova, mas nenhum como Van Gogh, Da Vinci ou Claudel. E ainda que não se adapte bem o termo, incluiria no cinema os ‘virtuoses’ Tarkovski, Kurosawa, Bergman, Truffault, e mais uns tantos, mas nenhum como Fellini ou Wells.

Haverá quem não concorde sobre o que penso e sobre os citados e não citados, não é aritmética, apenas uma reflexão sobre a diferença que normalmente não se faz entre a sensibilidade aliada à técnica esmerada e os que têm nas estrelas a inspiração. 

7 de nov. de 2015

ESTRADAS QUE NÃO LEVAM A PARTE ALGUMA

Grande parte dos seres humanos vive o martírio da solidão, estejam sozinhos ou não.


Procuram suas metades num amor incondicional, devoram livros de auto-ajuda buscando uma segurança vendida à granel, se embrenham nas redes virtuais à procura de ouro e só encontram imitações, viajam nos sonhos marginais da virtualidade ou da ficção, porque perseguem a metade ideal da laranja. 


E ainda que muitos duvidem da existência dessa metade ideal, misturam-se e igualam-se aos demais nessa busca inócua, dado que essa descrença sem plena  convicção pesa menos que a necessidade.


Se é verdadeiro que nenhum ser humano é igual a outro, também é que todos são absolutamente sós, do dia que nasceram até o fim das suas vidas, e a sensação de conforto por se sentirem acompanhados de seus pares, filhos, pais etc., não é suficiente para a plenitude e em tempo integral.


É da espécie humana o hábito gregário, porque uns precisam dos outros para a sobrevivência, o que não traduz exatamente num bem-estar permanente, conceito bem diferente da inexistente felicidade permanente.


Porque nada do outro ou do coletivo chega à “alma” de forma duradoura, se não há consciência do ‘estar só’, essa condição intrínseca de quem vive, mas que não leva ninguém ao martírio da solidão e às estradas místicas dos ideais utópicos do prazer e felicidade.

Antes  do "eu sou mais eu.... o "eu sou só"


28 de out. de 2015

A Mecânica do Vazio

João abriu seu feicibuque e 'curtiu' um cão que Suelen postou.

Na sua página vieram uma dúzia de canis oferecendo cães diversos.


Mas aquele 'curtir' soa como um sino que chama os fiéis das aldeias.

Suelen na hora entrou na página do João e 'curtiu' sua foto do perfil.

Que João viu, mas se interessou por Mara, amiga da Suelen.

Suelen fazia pilates, que ele não sabia o que era, e 'curtiu' uma foto dela saindo do mar.


Mara ouviu o "sino" - quem era o João? O que fazia?

Nada do seu interesse, mas lhe chamou a atenção uma frase do Nelson Rodrigues, que alguém postou na sua página.


Era um tal Pedro quem fez a arte. Pedro do quê, quem era Pedro? 

Perfil fechado, morava em Barcelona e se dizia ator.

Sua foto do perfil era de uma estátua viva de um Pierrô numa esquina da Rambla. 

Mara apertou o botãozinho de 'curtir'.


A reação de Pedro não foi diferente de ninguém.

Entrou no feicibuque da Mara, mas se interessou por Gabriel, aluno dela de pilates.

E na página dele 'curtiu' sua foto com a boca cheia de espuma escovando os dentes.

O que ele queria não veio, mas recebeu um monte de e-mails oferecendo dentifrícios e tratamentos dentários.


Quando cheguei até aqui, a luz acabou duas vezes e apagou o resto. Mas o resto não tinha novidades. 


Gabriel achou meio estranho aquele 'curtir' e também foi ver quem era Pedro,

que tal como a Mara também não pôde ver nada.


A Terra deu algumas voltas, mas ninguém saiu do lugar... 

Atrás de alguma emoção, além da sensação de vazio, 

todos tiveram em comum o único e esforçado gesto de mover um dedo. 

12 de ago. de 2014

PATAGÔNIA

foto de Ângela Loij
















Uma foto de capa da National Geographic de um Yaghan coberto de rugas me fez ir às terras do fim do mundo, como é conhecido o arquipélago da Terra do Fogo.

Era outono e logo entendi de onde vinham as marcas daquele índio. Depois de Rawson e Trelew já ventava e fazia muito frio, que só não incomodava tanto porque a vontade de chegar era maior, mas esse chegar é só uma maneira de dizer, porque não tinha onde chegar, só tinha um ir até onde houvesse terras pra pisar.

E ficaram pra trás, Puerto Desejado, Cabo Blanco, Três Montes, e Paraíso, esta minúscula localidade com menos de vinte pessoas, referência e último posto de abastecimento antes do Estreito de Magalhães.

Ali terminava o continente americano. A travessia pelo lado chileno, em Puerto Aymont, fazia o barco jogar como uma caixa de fósforo com o encontro das águas mais altas do Pacífico com o Atlântico.

Rio Grande, Ushuaia, canal de Beagle e a ilha de Nasvarino também ficaram pra trás, e terra pra ir não tinha mais, adiante o Oceano Glacial Ártico e o Pólo Sul.

Todo retorno é sempre difícil. O frio, agora sim, era quase insuportável e como nos mapas da América parecia que tudo era subida, mas por alguma estranha atração dessas paisagens desoladoras não foi a única vez que estive nessas terras do fim do mundo.

Esqueci tudo de química, a maioria das fórmulas de matemática; apaguei professores, parentes, amigos de escola, policiais desastrados, talvez porque nada disso tenha sido importante, mas do maior e menos habitado deserto do planeta, dessa primeira estada, bem guardadas ficaram duas coisas: o cão foguino, que me acompanhou por dias, e o encontro com Ângela Loij.

Ambos viraram pó, mas não é pouco lembrar deles – o que o cão me disse não sei escrever, já Angela, com seus olhos rasgados e azuis, o peso dos seus sabe-se lá quantos anos, curvada e muito enrugada, era a última descendente dos Selk´nans, e num confuso  espanhol contou como os brancos mataram seu povo - lembrando dos pais, irmãos, filhos e netos, sabendo que não havia mais ninguém além dela e da memória de maldades inconcebíveis. Peron tinha acabado de voltar do exílio, e ser eleito novamente o presidente da Argentina. Pinochet tinha acabado de se tornar o presidente do Chile, mas eu não sei nada disso e não pus datas como ponho esparadrapos em qualquer arranhão, que minha  memória não dói.

27 de mai. de 2014

UM DIA A MAIS

Uma parte do mundo desconhecido entra em casa pelas rodas do automóvel, ao menos para os cães, que pesquisam uma a uma com seus apurados olfatos, e terminam sempre do mesmo jeito: mijando nelas.
Não é o único mictório deles, que usam tudo que sai do chão pra marcar seus espaços, e as rodas não são exceções, é uma mijadinha em cima da outra, na ordem de poder que constituíram.
--- Um dia isso vai dar merda - eu pensava, olhando a ferrugem no perímetro dos aros, causado pela uréia principalmente.
Segundo minhas contas, cada aro recebeu mais de cem mil descargas ou mijadas. Fabricadas para aguentar trancos e barrancos, resistiram até os limites.
Até dar merda mesmo - com o auxilio de uma cratera da pista, a panela dianteira expulsou o pneu destruindo-o completamente. Tinha de ser numa noite de chuva, claro.
Estrada escura, pista alagada, e o pavor das crianças que estavam comigo no carro, experts nos seus Iphones e Tablets, tanto quanto completamente desajeitadas no lidar com certas aflições.
Mas pra que temos estepe, chave rodas, macaco?  Oras, facílimo... quer dizer mais ou menos. Ajoelhado, rodando a alavanquinha interminável do macaco, tomava um banho de água suja a cada ônibus ou caminhão que passava.
Tirar os parafusos do estepe também não foi mole, menos ainda os da roda. Os profissionais apertam aquilo com suas chaves-estrela enormes, e a nós, limitados no manejo dessas inutilidades, resta tentar com as ridículas chaves que fazem parte do automóvel.
Mas acabou dando certo, nenhum parafuso resistiu à agonia das crianças. Estepe colocado, os sorrisos e a calma voltaram aos seus lugares e eu, apesar de ensopado e sujo, senti um certo orgulhoso do dever cumprido.
Arre! Todos acomodados... Em marcha!
Em marcha, o cacete! Mal saímos do lugar e o estepe arriou murchinho. Agora estava fácil de fazer tudo novamente se o carro fosse equipado com dois estepes.
Sem outra solução, o negócio foi ligar pra Seguradora, afinal pra que pagamos seguro? Meu celular joguei fora há muito, mas as duas crianças estavam com seus aparelhinhos mágicos ligados...
--- Uhuuu... Meninas, algo útil pra vocês fazerem! Qual das duas pode ligar pra seguradora?
--- O meu não tem carga. 
--- O meu tem, mas é Tim, não tem sinal...
PqP.
De um jeito ou outro sempre saímos dos buracos. E dá-lhe Justin Bieber, até que umas 3hs depois chegou o guincho da seguradora.
Dia seguinte troquei as rodas. O vendedor perguntou como enferrujaram daquele jeito. Depois de ouvir, sem pestanejar, disse que matava os cachorros se fizessem isso com o seu carro.
Olhando pro serial-killer...
--- Mas isso é parte do universo deles. - disse. --- Quantos cachorros você tem?  

--- Não tenho cachorro, nem carro, amigo!

24 de mai. de 2014

Arquitetura Pós-Moderna, ou Contemporânea ou Eclética ou... não importa.: CIDADE DE SÃO PAULO

Arquitetura Pós-Moderna, ou Contemporânea ou Eclética ou... não importa.: CIDADE DE SÃO PAULO: Me perguntam se achava possível uma solução para o caos da movimentação urbana da cidade de São Paulo. 1. Todas as grandes cidades têm trâns...

CIDADE DE SÃO PAULO

Me perguntam se achava possível uma solução para o caos da movimentação urbana da cidade de São Paulo.
1. Todas as grandes cidades têm trânsito nos horários de pico, algumas até mais que S.Paulo, mas nenhuma é pior que aqui fora destes picos.
2. Investiram dinheiro nos estádios para a Copa, mas a parte que se referia à movimentação urbana, segundo li, só tem 11% executado (e esta é uma das principais reivindicações nos movimentos de junho/2013)
3. Faz-se novas avenidas, túneis e viadutos, que logo depois da inauguração se mostram congestionados como tudo (caso do Rodoanel).
4. Pessoas com alguma deficiência só arriscando a vida para utilizarem o metrô nos horários de pico, que também se apresenta além da capacidade.
5. Bairros mais centrais com infra-estrutura urbana fazem parte das tendências públicas para que se aglomerem mais, tentando evitar a dispersão e ocupação populacional nas regiões não atendidas pelos equipamentos urbanos (como se os atuais sistemas de redes de água e esgoto fossem de dimensões ilimitadas!)
6. Corredores de ônibus com horários têm causado grande confusão, e não demonstrou, exceto nos primeiros dias, a eficiência esperada.
7. Na década de 50 o país era 90% rural e 10% urrbano. Hoje é exatamente o inverso. Entre muitas razões, a principal é não haver políticas públicas que mantenha o homem no campo (esforço que tem feito muitos países subsidiando a pequena agricultura, motivo de crítica, por exemplo do ex presidente Lula, que tais medidas penalizavam os países em desenvolvimento - leia-se aqui que atrapalhavam nossas exportações) .
8. Convidado por vários partidos para ser candidato à prefeitura de SP, o urbanista e ex prefeito de Coritiba, Jaime Lerner (que resolveu grande parte do trânsito de N.Y., entre outras interferências bem sucedidas) jamais aceitou.
9. Tudo que se faz e se continua fazendo na área de movimentação urbana em SP tem se demonstrado inútil (ontem, 23/05/2014, a cidade registrou o maior trânsito da sua história, e não foi véspera de feriado, apenas uma chuvinha à toa)
10. A meu ver, como pensava o ex prefeito Figueiredo Ferraz, a única solução para um futuro melhor é a cidade parar de crescer! Foi quando me perguntaram se via uma solução. Esta é a solução, e o Estado tem como fazer isso com gente que pensa grande, com políticas corajosas e adequadas, exatamente o inverso do que vem fazendo há anos.

31 de dez. de 2013

O GRANDE MANICÔMIO

Pistas exclusivas para bikes, mega festas comemorativas para multidões em dias marcados no calendário, idéias públicas para pôr um tempero na vida insossa das grandes cidades.



No dia-a-dia são as calçadas esburacadas cheirando a tetra etila de chumbo, e os pequenos parques esmagados pelas edificações, os espaços onde celulares, e a parafernália eletrônica que se comunica sem se comunicar, passeiam com seus amos.



Quantos não chegam do trabalho exaustos e caem nos assentos em frente a TV, por falta de disposição ou por não se disporem arriscar a vida numa simples caminhada em seus quarteirões.



As grandes cidades engolem o homem porque não é ele a verdadeira razão do Estado, e não será urbanista, psicólogo, polícia ou político, que ajudará. O coração das metrópoles anda mal, as periferias se espalham como tinta derramada sobre um mapa, e nenhuma Lei que tenta organizar esse caos se sobrepõe ao que é regido pelo poder econômico. 



Entre muitas outras coisas, seria mais humano se abrissem clareiras no concreto. Ali mesmo, em muitas partes de qualquer cidade, há espaços cercados à espera de valorização, que o Estado poderia transformá-lo em algo útil à maioria. Poderia, mas não sem as eternas discussões sobre as prioridades do orçamento público, que ao Estado endividado a utopia da transformação não vai nunca além do básico.



E o tal espaço interessante morre antes de nascer. Ninguém viu começar e já temos mais um conjunto de edifícios ou um shopping center no lugar. O planejamento público está sempre atrasado nas soluções dos mega-problemas, corrida perdida se os rumos do desenvolvimento não forem mudados. Isso é válido para todos os cantos, agravado com a pobreza.



E o grande canteiro de obras que são as metrópoles é mais que a geração de empregos ou solução verdadeira para o homem, é uma fábrica de problemas - o medo associado à crescente violência, a insatisfação geral com o caos na movimentação urbana, e tudo aquilo que qualquer um de nós sabe enumerar, fere a cidadania.



E a 'maioria da minoria' encontra na falta de uma boa educação ou nos políticos, a razão de todo o mal. Políticos são mesmo culpados, e educação de qualidade pra todos não existe, ninguém está errado. Mas o que mais pesa nessa balança é a falta de caráter dos que não estão nem aí com nada, que conscientemente ou não, usam o sufrágio para eleger o que há de mais pernicioso ao país, fazendo com que o sistema sofra de uma doença sistêmica à mercê do poder econômico, chaga que não vem do mosquito!



Eu não gosto dessa doença que lesa a pátria, e tampouco sei lidar com esse mosquito que não é um mosquito! Então dispenso a realidade dos insanos, e sonho com um outro tempo, sem cenários com arco-íris ou gente sorrindo sem motivo, sem religião, partidos políticos, mas com o que importa, o remédio simples pra extinguir a doença sistêmica.



Espontaneamente e sem lideranças, de cada cidade, de toda cidade... empresários, pensadores, professores, governantes, os que plantam e colhem com as mãos, os que varrem as ruas... todos reunidos numa mesa deca métrica, refletindo sobre uma única questão, iniciada por "Nós herdamos essa merda e somos responsáveis por isso...".

25 de dez. de 2013

O GOL MAIS BONITO DO MUNDO

França, depois Suécia, e o Brasil foi campeão do mundo em 58. Era bem pequeno, mas nunca esqueci os rostos daquelas pessoas, que ouviam os auto-falantes e acompanhavam o jogo pela movimentação das luzinhas no painel gigante montado na Pça da Sé.
Sem ver o campo e os jogadores, o rádio é quem dava corda à imaginação. A Europa, com a ajuda do Sputinik , pôde ver os jogos ao vivo, quando se iniciou uma nova era nas telecomunicações.
Filmados em 16mm e vendidos para as televisões da América, os jogos e reportagens puderam ser vistos aqui depois da conquista. Lembro que a seleção Argentina teve uma derrota humilhante e foi recebida com uma chuva de moedas quando chegou.Nesse momento, um garoto chamado Pelé nasceu pro mundo, e foi, seguramente, o brasileiro mais conhecido em todos os continentes.
Quase quarenta anos passados vi na TV grega, na entrada do noticiário do horário nobre, imagens dele numa jogada rara que não resultou em gol, quando engana Mazurquievski, goleiro do Uruguai da copa de 70. Por que alguém repetiria todos os dias, pra milhões, um lance onde o jogador chuta a bola fora? Só quem tem paixão pelo futebol pode entender isso.
Mas não sei como nasce essa paixão, mesmo quando uma família inteira não se interessa.Com menos de dez anos, no campo dos bois, na Moóca, dia de semana à tarde, eu pensava que jogava futebol com os amigos da escola. Nós amávamos aquilo apesar de nos sentirmos minúsculos. Lá dentro tudo era gigante - bola, trave, a distância entre os goleiros, muito diferente de ver de fora o mesmo campo aos domingos, quando jogava o meu time do coração, Pascoal Moreira, com a camisa que na época lembrava a do Benfica.
Nunca fora a um estádio e pra mim aquele era o melhor time do mundo. Não perdia nenhum jogo, nem com chuva. E foi com chuva que vi o mais fantástico e inusitado gol da minha vida inteira. Puskas, Pelé, Garrincha, Messi, ninguém fez nada parecido, e vez por outra aquela imagem que nenhuma câmera registrou, que debaixo de um aguaceiro pouquíssima gente viu, me vem à cabeça.
Por acaso, quando li esta semana que morreu em 2005 aos 61 anos de idade, o Pelé loiro, meu ídolo da infância, lembrei esse que matou a bola no peito dentro da área, pôs no chão, e, ainda quicando, deu quatro chapéus seguidos em dois zagueiros antes de marcar num chute simples, rasteiro, sem defesa.
Descendente de polonês, com dezesseis anos teria também encantado o mundo se o vissem naquela época, mas o destino não é igual pra ninguém. Era um pessoa ótima, e foi um bom jogador quando se profissionalizou, mas não muito mais que isso nos dez anos que vestiu a camisa do Coritiba pelo campeonato brasileiro,  Kosilek ele se chamava.

23 de dez. de 2013

Frederica, e deus e o diabo na terra do sol.

"Que dia infernal, hoje deu tudo errado...". - disse a senhora de meia idade ao menino do seu lado.


"Isso aqui está um inferno". – falou o cobrador, com a gravata toda amarfalhada, a um passageiro que entalou na catraca.


Parecia mais um formigueiro aquele amontoado de gente, nenhuma ideia pode ser concatenada com tantos cheiros, ruídos, caras de "soutine", mas fiquei divagando sobre o porquê de se falar tanto no inferno num dia ruim ou muito quente, e quase nada sobre o céu num momento agradável ou de boa sorte.


Passou dos trinta graus logo se tem em mente uma coca-cola, cerveja bem gelada ou algo de Lúcifer. Estranho que as labaredas flamejantes são o antagônico modelo do cálido azul do paraíso, que ninguém cita nos dias bons.Do paraíso fresquinho das terras etéreas do Senhor, só vez por outra, depois de uma delícia qualquer, escuta-se que 'aquilo é dos deuses', ainda assim só uma referência aos deuses pagãos, e não passa disso. Agora, uma coisa é certa, quem fica bravo à toa, fala alto como os trovões, talha pedra com fogo, isso lá é coisa do divino; ao contrário, o capeta é mudo ou muito educado.


O ônibus freiou de uma vez e só não caiu todo mundo porque não se podia cair, lotado que estava. Na hora pensei na Frederica, a indiazinha que está hospedada em casa - ela não ia entender isso. A pequena veio à cidade por estar no programa de reciclagem cultural criado pela Fundação de Amparo ao Índio pra facilitar a ocupação das terras dos seus parentes.


Frederica...? Como puderam dar um nome desses a uma aborígene? Mas é o que menos importa, pra ela complicado são as aulas de catecismo, que não está compreendendo direito e me faz perguntas, que tampouco sei responder. Queria poder lhe explicar essa história do bem e do mal, mas confesso que não sei por onde começar... e minha cabeça estourando com o calor e aquelas falas sobre as más sortes, citando o inferno a cada instante...


Vozes se misturavam aos braços, coxas, cabelos... nem sei como fui lembrar que aprendi com as freiras do colégio, que ao inferno vão as crianças más e desobedientes, os inconformados, os ladrões, enquanto o céu recebe os que pautaram por uma existência comedida e sem sobressaltos, enfim, os que transbordam de amor. Assim me ensinou o catecismo nas suas primeiras lições, mas nem é preciso ser um estudioso do assunto pra perceber que essa espécie de guerra fria só não passa na TV porque todo curioso que se atreveu conhecer não voltou.


Dúvidas, quem não as tem? Se a ciência  já desvendou com o mapa genético os mistérios do corpo, da alma nada se sabe, muito menos onde se traça o destino dos recém-nascidos. Parece que ali tem uma mãozinha de Jeová e outra de Lúcifer, como se na calada da noite trabalhassem juntos, porque no corpinho do bebê vem grudada a etiqueta, que diz o quanto terá de alegria, de saúde, de doença, de tristeza... Por que o bom deus faria parte desse desastre? Cruz credo!


Não obstante, ao menos em pensamento, a maioria esmagadora dos humanos prefere gozar suas férias prolongadas e obrigatórias nos primaveris campos do éter a arder nas fictícias fogueiras das entranhas da terra. Mas fora as especulações metafísicas, nada se sabe de concreto sobre esses misteriosos czares, se há patrulhamento ideológico pelo grau de bondade ou maldade, nem quantas Chinas haveria nesses mundos, só há pura especulação.


Há quem pense que o ingresso ao céu pode ser adquirido matando em nome de deus. Se assim é, imagino um fim de tarde com as beatas de Santa Catarina tomando ar fresco numa animada conversa com os integrantes do Talibã. Argh... Seria deus psicótico, com múltipla personalidade? Como poderia receber de braços abertos um Pen Xin Xong, um Padre Pio, as crianças ortodoxas russas e seus algozes muçulmanos chechenos?


Sei não! Dizem que o inferno hospeda Galileu, Da Vinci, Giordano Bruno; mas se as tais fogueiras queimassem mesmo como as daqui, o inferno seria um 'não lugar' onde só haveria cinzas, e o diabo seria um joão-carvão qualquer, não um cidadão de primeira classe como é tratado nas Assembleias de Deus.


Depois, Dante fez menção a um inferno gelado...  isso é muito confuso. Às vezes penso que marqueteiro sempre existiu, não é privilégio de político, e aqueles da Galileia podem ter invertido a ordem das coisas, fazendo com que todo inconformado com o mal, fossem os maus, e povoaram o inferno com as crianças rebeldes, os pensadores, os ateus, os verdadeiros artistas; no céu hospedaram só os devotos. 


Lá estou eu blasfemando de novo! Droga, acho que o calor no ônibus está me fazendo delirar. 


Arre, desci! Sopra uma brisa suave na calçada, estou chegando em casa. Da esquina vejo Frederica na sua inocência, pulando feliz em frente ao meu portão.Melhor deixar esses pensamentos pra lá, quando ela crescer certamente saberá resolver isso melhor do que eu. Por hora, transborda de alegria e nem desconfia que está perdendo sua história com uma canetada de gabinete. Melhor assim, nem o relógio, nem a Terra vão mesmo girar ao contrário, e sem infâmias ela ainda seguirá criança por algum tempo.

19 de dez. de 2013

CHAMAVA MATILDE

--- Sabe, Zé, tô cheia dessa vida, tô pensando em a gente se divorciar.
--- Cê que sabe, Matilde, se é o quer mesmo...

--- Pra você tanto faz, né Zé? Pra você, eu e ninguém é a mesma coisa.
--- Isso não. Já passamos por muitas, nunca pensei assim... Depois, e a viagem que a gente ia fazer, como fica?

--- Viagem? Que viagem?
--- Esqueceu que combinamos ir ao Paraguai?

--- Zé, tô com fome, cê não me entende...
--- Quer um café?

--- Tô dizendo, Zé, cê não me entende mesmo, tô com fome, tô com frio, tô cansada!
--- Cê tá deprê, Matilde, isso passa, uma hora tudo passa.

--- Sei não... e essa viagem nunca vai ser...
--- Cê acha mesmo, Matilde? Cê pensa que sou de desistir?

--- Zé, ouve... a gente fala disso desde que se conheceu.
--- Pra ir lá a gente só tem que comprar umas roupas...

--- É, né, Zé, e desde quando a gente não compra umas roupas?
--- Por isso, Matilde, que a gente ainda não foi, mas o Paraguai tá lá, nós tamos aqui, uma hora a gente vai, e lá é quente, nem casaco precisa.

--- Tô com frio, Zé!
--- Com fome e com frio, e ainda pensando em se divorciar... cê tá mesmo fodida, Matilde, tenta se concentrar numa coisa boa... Lembra quando a gente foi no mar?

--- Ah, Zé, sempre cê vem com essa história do mar... nem lembro mais quanto tempo faz que a gente pisou no mar.
--- Matilde, presta atenção! Já num falei um monte de vezes que a gente não pisa no mar...

--- Falou sim, Zé, umas mil vezes, cê é um chato, e egoísta.
--- Egoísta num sou, e o que é certo é certo, Matilde.

--- Então me leva num restaurante, que eu tô com fome!
--- Olha tua cara no espelho... passa um pente nesse cabelo!

--- Vai me levar? Assim, sem banho, Zé?
--- Sem banho. 

--- Vai me levar mesmo?
--- Quanto cê tem aí, Matilde?

Fazia frio e caía uma chuva fina quando meu ônibus chegou. Da janela vi o casal de mendigos se levantando, pondo coisas numa sacola até desaparecer da minha vista quando o ônibus fez a primeira curva.

17 de out. de 2013

ARQUITETURA DAS NOVÍSSIMAS TOMADAS

ARQUITETURA DAS NOVÍSSMAS TOMADAS


ARQUITETURA DAS NOVÍSSIMAS  TOMADAS
Eurípedes não era arquiteto, nem engenheiro. E tudo começa num superchurrasco.
Convidou amigos, família, vizinhos. Sol escaldante, cerveja, música alta, mais ou menos igual a todos os churrascos, exceto por um pequeno detalhe - ele estava à beira da falência, não tinha nem grana, nem nada para comemorar. Gastava por conta de uma ideia que mudaria muita coisa se desse certo, principalmente sua vida.
Sua mulher não estava entendendo. Também não sabia o que se passava na cabeça dele, ela que andava numa “pendura” daquelas, economizando em tudo, ouvindo sempre a mesma ladainha. É que a fabriqueta de bugigangas plásticas do Eurípedes ia de mal a pior, devia impostos, aluguel, salários...
Naquela noite, ela bem que tentou, mas dele só ouviu: "Tive uma ideia genial, vamos ficar milionários..".
No dia seguinte, ele foi ao sindicato encontrar-se com um tipo engravatado pouco comum de se ver por lá. Não foi o primeiro encontro, nem seria o último. Conversaram horas a fio, Eurípedes explicou tudo detalhadamente. No final entregou a ele uma pasta cheia de desenhos.
Uns meses depois a fabriqueta não fechou, ao contrário, com a ajuda daquele indivíduo, Eurípedes alugou um galpão bem maior e conseguiu um empréstimo pra financiar umas injetoras plásticas de última geração.
Era uma questão tempo. Não de muito tempo.
Foi no Congresso que começou o resto da vida de Eurípedes, do novo Eurípedes, diga-se, aprovada que foi a alteração de segurança nas tomadas, interruptores e plugues do país. Foi um tempo de muitas idas e vindas, notícias boas e não tão boas, redação e convencimento trabalhosos junto às associações de normas técnicas. E como ninguém é santo neste país, acabou dando certo.
E os dias de “pão que o diabo amassou” terminaram pra ele, que com a bala no cano, dedo no gatilho, antes que qualquer um pudesse... sua fabriqueta explodiu – dezenas de novos funcionários, máquinas trabalhando 24horas por dia, pedidos e mais pedidos chegando sem parar.
Valeu, Sr. Eurípedes! Valeram as horas de sono economizadas para criar algo único no mundo. Valeu o esforço, essa preparação com antecedência -  suas tomadas e plugues são absolutamente originais, diferentes de todos os padrões, de todos os países - o que deve ser motivo de orgulho, sem dúvida.
Mas há alguns detalhes incompreensíveis. As normas dizem que as tomadas e plugues devem resistir a dez mil engates e desengates sem deformar. Ora, Sr. Eurípedes, não sei se isso também foi ideia sua, mas essa dezena de milhar é meio exagerada, não? E se não durarem? Tem telefone marcado nas tomadas pra reclamar? Procon e Tribunal de Pequenas Causas aceitariam essa reclamação?
Deixemos isso de lado, que sei que ninguém vai encher seu saco porque teria durado oito anos e meio, mas há um probleminha sério na sua invenção, esse sim. Por tanta criatividade e originalidade, o senhor conseguiu fazer a coisa mais idiota que o mundo já viu, sabia? Conseguiu que a maioria aprendesse o verdadeiro significado da palavra (que inexiste em outros idiomas) "gambiarra". E todo mundo virou eletricista. Estão vendendo serrinhas, lixas, pra cortar as abas dos blocos de extensão, que nada encaixam, chaves de fenda para abrir as ditas, furadeiras Hobby para alargar furos... enfim, cada brasileiro virou um técnico em "gambiarra". Os que não levam jeito só cortam os velhos plugues e enfiam os fios diretamente nas novíssimas tomadas.
Tá bom demais, né, Eurípedes!  Comprou um carrão? Seus filhos podem comer Big Macs.  Sua mulher está feliz? Os lobbies que o ajudaram estão rindo à toa? Conhece o parlamentar que conseguiu aprovar esse insólito?
O que eu penso... que se o senhor e seus ajudantes sonham com anjos e se julgam merecedores de uma eternidade sem ressaltos, tirem o cavalinho da chuva, que se alguém com asas tiver que carregá-los certamente será uma nuvem de baratas.