Arquitetura sempre refletiu o seu tempo, ou imitou o passado, ou inventou o futuro, mas obras civis, diferentemente das outras manifestações humanas, talvez exceto a música, literalmente envolvem os homens do início ao fim da sua existência.
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28 de out. de 2015
30 de jul. de 2014
Destino e Utopia
Perguntaram a um cineasta o que era utopia (ao seu lado Eduardo Galeano suspirou – "ainda bem que essa não caiu pra mim..." ).
O cineasta disse: "Utopia é aquilo que perseguimos, mas a cada passo que damos ela se afasta..." Logo voltaram a lhe perguntar: "Então pra que serve a utopia?"
"Serve para caminharmos.." – respondeu.
Penso ser a resposta mais sintética e precisa que já ouvi, fala sub-repticiamente do destino.
Ter um sonho e persegui-lo por toda uma vida, e lá distante, às vezes nem tão distante, a visão concreta desse desejo... mas esse quase é inatingível. Serviu, sim, para caminhar e dar razão a existência, mas a utopia mostrou que o livre arbítrio não é irrestrito.
Que ninguém duvide, que à priori não é impossível que um indivíduo comum se torne um astronauta ocasional. Não é necessário ser atleta, só é preciso ter boa saúde e muito dinheiro, condição aliás básica, que quem não tem pode vir a ter, o que não é impossível. Mas o objetivo, essa razão de ser, faz-se água se o indivíduo na última hora tiver náuseas, dor de estômago ou mostrar paúra – reprovado, acabou o sonho. Não foi por falta de desejo, obstinação, luta, apenas seus genes não quiseram que fosse possível, porque esse era seu destino.
A utopia não é órfã do destino escrito pelo indivíduo.
Que se constrói com o que nos foi presenteado pelo genoma e por tudo que está ao nosso redor finito, somado as quase infinitas possibilidades do pensamento, cujas escolhas, conscientes e inconscientes - o livre arbítrio - determinam nossa existência. A estrada é larga, sinuosa e longa, tem vista e pode-se parar no acostamento, mas também tem buracos e não é de dupla mão.
Aos que creem que suas atitudes são regidas pelo mistério, que suas conquistas se devem a ele, tal como seus erros, e são candidatos à plenitude se forem merecedores, nada do que penso tem o poder de mudar uma vírgula quando as palavras são revestidas de fé.
E o que me aflora desde sempre, é que a única coisa que não se pode discordar, é que com as palavras exatas tudo deste mundo pode ser dividido em dois - não exatamente em partes iguais, mas em dois: os brancos e os não brancos, os que fumam e os não fumantes; crentes e descrentes; os mais ou menos honestos e os desonestos; os muito doentes e os menos doentes, os que concordam e os que discordam etc.
8 de jun. de 2014
Até breve... nunca mais.
Parou de falar com os cachorros do prédio, com as crianças, nem mais um simples olá ou bom-dia deu aos vizinhos, que ninguém entendeu.
--- Teria brigado com a mãe ou uma desilusão amorosa? - se perguntou um.
Poderia ter discutido e ficado aborrecido com a mãe, se tivesse mãe. Mulher também não tinha, e nenhum caso que se soubesse.
Aposentado, ainda fazia uns bicos consertando fechaduras e relógios de parede, sempre acompanhado pelo cão que nunca usou coleira. Mas quando mudou, mudou mesmo - parou de trabalhar, e pediu para desligar o telefone.
--- Não tinha TV, e agora também sem telefone... Será que ficou surdo? - se questionou outro.
Podia ser, mas não parecia. O velho aparentava boa saúde, e seu cão também. Saíam muito cedo, só voltavam ao anoitecer.
--- Onde iam, como gastavam as horas? - curiosos, pensavam todos.
O edifício era pequeno, antigo, e abrigava uns tantos desempregados, que falavam alto e viviam discutindo. Tudo era motivo pra encrenca - o filho do outro que deu um chute, o grito de gol do time adversário... Os que não gostavam de discussão eram mestres em intrigas. Aquilo era o exemplo saudável do inferno sem o demônio, e o velho solitário deve ter se enchido daquela gente, que pensava em tudo menos nisso.
-- Pode ter recebido uma notícia lá da sua terra, a morte de algum parente que gostava... - falou o síndico para o bando de briguentos.
Ele era o morador mais antigo, ninguém o viu chegando, nem sabiam se teve mulher, se era viúvo. O sotaque estranho não se identificava a origem, e ele nunca explicou a nenhum, mas quando lhe perguntavam dizia ter nascido ali mesmo. Podia ser, mas não parecia ser.
Numa manhã saiu com seu cão, como de costume, mas não voltou. Nem no outro dia também.
--- Eu sabia! Alguma coisa errada tinha... - comentou seu vizinho do lado.
Um outro alguém também comentou que podia ser um foragido da Justiça.
--- Ele é velho, pode ter morrido na rua, isso acontece! - disse a vizinha do térreo.
Uma semana depois...
--- E se voltou de madrugada e ninguém viu? Pode estar morto aí no apartamento... - sugeriu o morador novo, que mal o conhecia.
Quando o policial arrombou a porta do apartamento, entraram todos - o apartamento estava absolutamente vazio e limpo, janelas fechadas, nenhuma cadeira, tapete ou copo. Ninguém viu mudança alguma, nem o velho saindo com alguma tralha além do cão.
--- Ninguém vai embora assim sem um até breve... - todos querendo respostas.
--- Esse é um país livre, cada um vai quando e pra onde quiser... --- falou o delegado, irritado com aquela gente.
Parentes ele não tinha, e se ninguém da família faz um Boletim de Ocorrência do desaparecimento, a polícia não toma conhecimento.
--- E agora, como vai ficar o apartamento dele? .. Ou não é dele? - perguntou ao síndico, a Sra. do último andar..
--- É dele sim. - disse o síndico, que ainda não sabia que naqueles
dias o velho vendera, e que saiu do banco com uma mala de dinheiro, indo sabe-se
lá pra onde com seu cão que nunca usou coleira.
Sobre seu paradeiro ninguém nunca soube, mas tampouco esqueceram a despedida que não teve, aquilo incomodava.
E mesmo muito tempo depois, com os mesmos genes encrenqueiros dos pais, os filhos crescidos continuavam inconformados com o velho que sem um até breve sumiu como veio, sem ninguém ver.
Se alguém achar que a história é chata, que não tem um final, eu respondo sem nenhuma aflição: tem sim, o inferno existe sem o demônio e é aqui mesmo, mas nem todo mundo se sente atraído.
24 de mai. de 2014
CIDADE DE SÃO PAULO
Me perguntam se achava possível uma solução para o caos da movimentação urbana da cidade de São Paulo.
1. Todas as grandes cidades têm trânsito nos horários de pico, algumas até mais que S.Paulo, mas nenhuma é pior que aqui fora destes picos.
2. Investiram dinheiro nos estádios para a Copa, mas a parte que se referia à movimentação urbana, segundo li, só tem 11% executado (e esta é uma das principais reivindicações nos movimentos de junho/2013)
3. Faz-se novas avenidas, túneis e viadutos, que logo depois da inauguração se mostram congestionados como tudo (caso do Rodoanel).
4. Pessoas com alguma deficiência só arriscando a vida para utilizarem o metrô nos horários de pico, que também se apresenta além da capacidade.
5. Bairros mais centrais com infra-estrutura urbana fazem parte das tendências públicas para que se aglomerem mais, tentando evitar a dispersão e ocupação populacional nas regiões não atendidas pelos equipamentos urbanos (como se os atuais sistemas de redes de água e esgoto fossem de dimensões ilimitadas!)
6. Corredores de ônibus com horários têm causado grande confusão, e não demonstrou, exceto nos primeiros dias, a eficiência esperada.
7. Na década de 50 o país era 90% rural e 10% urrbano. Hoje é exatamente o inverso. Entre muitas razões, a principal é não haver políticas públicas que mantenha o homem no campo (esforço que tem feito muitos países subsidiando a pequena agricultura, motivo de crítica, por exemplo do ex presidente Lula, que tais medidas penalizavam os países em desenvolvimento - leia-se aqui que atrapalhavam nossas exportações) .
8. Convidado por vários partidos para ser candidato à prefeitura de SP, o urbanista e ex prefeito de Coritiba, Jaime Lerner (que resolveu grande parte do trânsito de N.Y., entre outras interferências bem sucedidas) jamais aceitou.
9. Tudo que se faz e se continua fazendo na área de movimentação urbana em SP tem se demonstrado inútil (ontem, 23/05/2014, a cidade registrou o maior trânsito da sua história, e não foi véspera de feriado, apenas uma chuvinha à toa)
10. A meu ver, como pensava o ex prefeito Figueiredo Ferraz, a única solução para um futuro melhor é a cidade parar de crescer! Foi quando me perguntaram se via uma solução. Esta é a solução, e o Estado tem como fazer isso com gente que pensa grande, com políticas corajosas e adequadas, exatamente o inverso do que vem fazendo há anos.
1. Todas as grandes cidades têm trânsito nos horários de pico, algumas até mais que S.Paulo, mas nenhuma é pior que aqui fora destes picos.
2. Investiram dinheiro nos estádios para a Copa, mas a parte que se referia à movimentação urbana, segundo li, só tem 11% executado (e esta é uma das principais reivindicações nos movimentos de junho/2013)
3. Faz-se novas avenidas, túneis e viadutos, que logo depois da inauguração se mostram congestionados como tudo (caso do Rodoanel).
4. Pessoas com alguma deficiência só arriscando a vida para utilizarem o metrô nos horários de pico, que também se apresenta além da capacidade.
5. Bairros mais centrais com infra-estrutura urbana fazem parte das tendências públicas para que se aglomerem mais, tentando evitar a dispersão e ocupação populacional nas regiões não atendidas pelos equipamentos urbanos (como se os atuais sistemas de redes de água e esgoto fossem de dimensões ilimitadas!)
6. Corredores de ônibus com horários têm causado grande confusão, e não demonstrou, exceto nos primeiros dias, a eficiência esperada.
7. Na década de 50 o país era 90% rural e 10% urrbano. Hoje é exatamente o inverso. Entre muitas razões, a principal é não haver políticas públicas que mantenha o homem no campo (esforço que tem feito muitos países subsidiando a pequena agricultura, motivo de crítica, por exemplo do ex presidente Lula, que tais medidas penalizavam os países em desenvolvimento - leia-se aqui que atrapalhavam nossas exportações) .
8. Convidado por vários partidos para ser candidato à prefeitura de SP, o urbanista e ex prefeito de Coritiba, Jaime Lerner (que resolveu grande parte do trânsito de N.Y., entre outras interferências bem sucedidas) jamais aceitou.
9. Tudo que se faz e se continua fazendo na área de movimentação urbana em SP tem se demonstrado inútil (ontem, 23/05/2014, a cidade registrou o maior trânsito da sua história, e não foi véspera de feriado, apenas uma chuvinha à toa)
10. A meu ver, como pensava o ex prefeito Figueiredo Ferraz, a única solução para um futuro melhor é a cidade parar de crescer! Foi quando me perguntaram se via uma solução. Esta é a solução, e o Estado tem como fazer isso com gente que pensa grande, com políticas corajosas e adequadas, exatamente o inverso do que vem fazendo há anos.
9 de jan. de 2014
Resignação
Diante de injustiças que cremos, do que não podemos entender por ignorante que somos, ocupamos esse vazio com a resignação do 'deus sabe o que faz', mas esse não é o deus da criação do universo, se existir, só o ser pobre do nosso desencanto e solidão.
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