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28 de set. de 2016

Esperanza

Não se encontra na razão toda a explicação do desejo, mas agregado à alma a poeira das estradas, como as estrelas, transformam a maneira de ver o outro.

Era um fim de outono, dez da noite, último dia do ano, a Ruta 3 deserta. O sol enorme e vermelho do poente não permitia focar à distância uma mancha escura, que podia ser uma ave ou um cão.

Depois de uma hora de caminhada - nem era um cão, nem uma ave, mas a traseira de um automóvel preto parado no meio da pista. E aquele não era um solitário carro quebrado, só o último de uma fila de exatos vinte e seis, e todos vazios.

Naquele momento um estranho sibilo metálico se misturava às rajadas de vento, mas no entorno não havia nada, quando toca a campainha de um celular sobre o painel de um dos carros. Hesitei em atender, mas aquilo insistia tanto que acabei pondo o sujeito no ouvido. E alguém ouviu o meu “alô” com um suspiro, e foi só e tudo o que me foi permitido, não entendi nenhuma palavra até o aparelhinho se calar por conta própria.

O céu escureceu de vez. E se a noite nunca atrasa, aquela veio na hora e com chuva torrencial. Não ia mesmo chegar a lugar algum com tanta água, que me acomodei no banco traseiro daquele carro.

Com o barulho dos trovões o estranho ruído desapareceu. Ou, se, exaurido, embarquei rápido para algum lugar num outro mundo, que não percebi nada até abrir os olhos na primeira manhã do ano seguinte.

O céu era todo anil, o sibilo voltou mais forte, e não havia mais nenhum carro além do que eu estava. Pensei em anotar a placa, que chegando ao vilarejo talvez alguém de lá pudesse me explicar o que acontecia, mas o carro não tinha placa. E se no meu mapa dizia que faltavam só alguns quilômetros, certeza que andei muito mais, e o tal ruído só se calou quando cheguei ao único posto de combustível da região, na entrada da pequena comunidade conhecida como Esperanza, que não tinha mais do que trinta habitantes.   

Mas não havia ninguém no posto, nem na hospedaria.

A estalagem tinha as portas escancaradas. Bati palmas, assobiei, cansei de chamar por alguém. Esperanza fora abandonada. Sobre o balcão do refeitório, uma cesta com pão amanhecido e um café frio numa garrafa térmica. Peguei emprestado um pão e sentei junto a uma mesa próximo à janela.

Estendi meu mapa, a próxima vila era muito distante e voltar também não era pouco. Absorto, olhando a ventania de areia pela vidraça, como uma pipa sem rumo num vento louco um menino ziguezagueava com a mão nos olhos. Larguei tudo na mesa e corri em sua direção. Ele agarrou minhas pernas chorando muito. Abracei-o e entrei com ele na estalagem.  

--- Como se chama? – perguntei.  
--- Juan – disse, soluçando. 

--- Que foi, Juan, que está acontecendo aqui? – passando a mão nos seus cabelos tentando acalmá-lo.
--- Eu moro com minha avó, foi ontem de manhã. Ela viu da janela uns caminhões grandes e uns homens de uniforme, mandou eu ficar quieto, que ia ver o que era aquilo, e não voltou.

--- E seus pais?
--- Não tenho pai, sou cego, minha mãe mora em outra cidade. Ontem, enquanto esperava pela minha avó, ouvi gente gritando e chorando, o barulho alto dos motores dos caminhões, fiquei com medo e me escondi, quando entraram em casa não me acharam.

Juan tinha a pele clara, cabelos quase brancos, olhos azuis como de uma pintura, e talvez uns dez anos, e assim que se acalmou, me perguntou onde estava sua avó e quem eu era.

Não pude lhe responder com a precisão que certamente desejava, mas disse se quisesse encontrar sua avó teria que vir comigo e andar uns três dias (na hora decidi voltar), e perguntei se tinha alguma comida na sua casa.

Quase não tinha nada, peguei algumas poucas coisas, um cobertor, uma garrafa de água, e saímos rápido dali, mas me perguntei como alguém podia morar naquele casebre sem calefação, quando no inverno Esperanza tem temperaturas abaixo dos trinta graus? Em Três Cerros é a única referência humana em centenas de quilômetros, com sua hospedaria aquecida e o posto de combustível.

Apesar de não enxergar Juan tinha algum sentido que desconheço. Me acompanhava sem tropeçar, não reclamava nem fazia perguntas. As que eu lhe fiz não sabia responder, mas lembrou que há algum tempo, desde que surgiu no campo aquele estranho ruído metálico, não se podia mais beber a água que vinha do rio, e que sua avó tinha uma vaca e umas galinhas, que foram ficando magrinhas e acabaram morrendo.

Fiquei pensando no que disse. E se enquanto tinha sol, apesar do vento, ainda fazia algum calor, à noite a temperatura caía a uns três ou quatro graus, O dia se fora, e antes do breu total me afastei da pista, cortei uma touceira de capim e fiz ele deitar e se enrolar no cobertor. Dormiu na hora. Rezei para não chover, só tínha um abrigo de chuva.

Dia seguinte, outra vez sem cruzar com uma única alma, andamos umas dez horas até desaparecer da vista a imagem dos Três Cerros (o acidente geográfico que consta dos mapas ingleses desde o Sec. XVI). Descansamos e comemos um pouco antes de seguir. Se aguentássemos a jornada dormiríamos mais uma noite e chegaríamos a Jaramillo no fim do outro dia.

Anos atrás estivera naquelas paragens, mas desta vez, apesar da sempiterna devastadora solidão do deserto, havia alguma coisa muito errada com aquele lugar, nada ali se movia além do vento.

Acordamos cedo na manhã seguinte e andamos novamente o dia todo, eu estava exausto. Apesar da aparência frágil, ele era selvagem, acostumado a coisas inverossímeis, e não demonstrava cansaço, nem aborrecimento, quando no começo da noite, enfim, chegamos a Jaramillo.

Uma semana sem ver ninguém, a primeira coisa que fiz foi entrar com ele numa lanchonete. Juan parecia feliz em ouvir a voz de pessoas, e enquanto comia me perguntou sobre sua avó. O que podia fazer se não levá-lo a uma delegacia de polícia e relatar tudo o que vi e senti?

--- Esperanza? Esse lugar não existe, nunca existiu! De onde você é? – me perguntou o policial.

Tentei argumentar que conhecia aquele lugar, que já estivera lá num inverno. Ele me disse que estava sonhando, que era melhor pra mim esquecer tudo aquilo e ir embora, que eles já tinham problemas demais na região.

Quando se assegurou que Juan era cego mesmo, disse que o levaria para sua casa aquela noite, que no dia seguinte o encaminharia para uma tal Fundação do Menor, e que iam procurar o paradeiro da sua avó.

Naquela mesma noite consegui uma carona de um funcionário da estatal petrolífera, mas tudo que lhe perguntei ficou no ar, ele não falava nada sobre o assunto. De madrugada cheguei a Rawson, daí o reencontro com a civilização.

Foi a última vez que estive por lá, mas não estava sonhando, aqueles automóveis sumiram enquanto dormia. E como esquecer daquele menino? Tampouco soube o que fizeram com aquelas pessoas.

Pela descrição de Juan - água contaminada, os animais da avó que definharam, a gritaria, homens de uniforme e o barulho dos caminhões, tenho a impressão que foi o exército que retirou às pressas os moradores de Esperanza e isolou aquela área.

Não há verdade que não se duvide, mas exatamente naquelas coordenadas (latitude 48º 07´- longitude 67º 38´), concentra-se o maior buraco de ozônio do planeta. 




4 de set. de 2016

OUTROS DIAS, OUTRAS PESSOAS, OUTROS SORRISOS...

Outros dias, outras pessoas, outros sorrisos...

Acabei de pegar o Renatinho na escola, tá com dor de dente.
-- Abre a boca, filho, mostra onde dói. -- Não.
Sou a mãe dele, tô exausta, meu chefe é um chato de galocha, pensa que sou sua escrava , e acho que sou mesmo.
-- Abre a boca, filho, mostra onde dói! 
Ele chora, berra de boca fechada, pode? Pode. Minha vontade é de chamá-lo de filho da puta, mas não sou de dizer essas coisas e sou sua a mãe.
Ligo pro Renato, o pai dele, meu marido há nem sei quanto tempo. Ocupado, claro, sempre ocupado, não tem tempo pra nada. A secretária pede pra ligar mais tarde. Digo que é urgente, ela volta e diz que ele me retorna em seguida.
O carro anda e para, mas ele não, nem o barulho da rua disfarça, é uma berração em uma nota só.
Meu deus, vou pra casa ou levo ele ao dentista sem consultar o Renato? Liga, Renato, liga, não tô mais aguentando isso. Mas ele não liga. Não sou mesmo de falar palavrão, mas quero que o mundo se foda, não tenho dez reais na carteira e é aqui mesmo que vou entrar.
Lugar meio sujo, nunca entrei num Posto de Saúde da Prefeitura, nunca precisei. A Maria, minha diarista, diz que tem dentista, tá certo que ela tá na fila há meses para arrumar uma ponte, mas o Renatinho não precisa de dentadura, só de uma dura ou um remédio qualquer.
Ai meu pai do céu, por que mereço isso? Ele puxou tudo do pai, não só o nome, mordeu o dedo do doutor igual a um cão raivoso, e ainda tive de ouvir um sermão daqueles.
Depois que enfiei ele no carro, abriu a boca gritando mais ainda. Cadê o Renato, que nunca está onde e quando preciso dele. Manhê, socorro, não dei nenhum trabalho quando era criança, sua imbecil inútil, por que morreu tão cedo? Que adianta, agora nada adianta, tô morta, a cada minuto parece que minha casa se afasta mais com esse trânsito. Quando chegar vou dar um doril pra ele, vamos ver se passa.
-- Filho, diz pra mamãe quando começou essa dor, fala comigo por favor. Buá....e buá.... 
-- Alô? Renato? Arre. O que foi? Seu filho, que não para de chorar. Tá, nosso filho, desculpe. Onde estou? Na rua, no trânsito, com ele berrando de dor de dente, não tá escutando? Como..? Eu sei que ele tem os dentes perfeitos, iguais aos seus, mas tá berrando, com a mão na boca, até parei no Posto de Saúde, mas quem disse que ele abre a boca. -- Claro que o doutor tentou, mas sabe o que ele fez? Quase arrancou o dedo do sujeito, que ainda me deu uma dura daquelas, que não sei criar meu filho, quer dizer nosso filho. – Está rindo? Pera aí, me escuta, tô chegando em casa, pensei em dar um doril pra ele, que acha? Não?  Então o quê? 
Merda, acabou a bateria do celular.
-- Filho, para de chorar, por favor, vai passar logo, mamãe vai te dar um remédio assim que a gente entrar em casa.
Mas assim que abrimos a porta ele parou de chorar. – Ai, num acredito, tava ficando louca. Passou, filhinho? Ele balança a cabeça, que sim. – Diz agora pra mamãe onde doía? Ele levanta a gengiva e mostra um corte. -- Que foi isso? -- Foi o Alfredo, sabe? -- Não, não sei. -- Foi ele, o Alfredo, ele me acertou um soco bem aqui. -- Por que, filho, que você fez? --  Ele me xingou e eu dei uma mordida nele, quando soltei ele me deu um murro. – Mas você mordeu ele...? – Mordi.
– Não acredito, virou índio, é? Quando seu pai chegar nós vamos ter uma conversinha, agora vai fazer suas coisas, que já são sete e meia, não tenho tempo pra nada, tô morta e tenho que fazer o jantar pro seu pai, e eu nem posso pensar em comida.
-- E toma isso, filho, bochecha três vezes. -- Se arde? Arde, arde muito, acho que você vai morrer... 
Só ouvi ele no banheiro bochechando umas dez vezes. Eu sei que mereço. Sou uma idiota incompetente, quase derrubei a frigideira com óleo fervendo só de sentir o Renato entrando e perguntando cadê o filhinho dodói.
– Tá no quarto, era um corte na gengiva, ele mordeu um tal de Alfredo e levou um murro na boca.
– Eu sabia.
– Sabia o quê?
– Que não era dente cariado, nunca tive uma cárie, igual meu pai e meu avô. E o jantar, está pronto?
-- Como pronto, quantas mulheres você tem, não acabei de chegar?
– É que, acho que esqueceu né, hoje é quinta, tenho o joguinho de futebol lá no clube, mas tudo bem, vou ver o Renatinho e me trocar rápido. No caminho me viro e como um sanduba.
-- Filhooooo, filhoooo...

Quando li dia desses o que uma poeta escreveu, que ainda bem que existem outros dias, outras pessoas, outros sorrisos, juro que se ela fosse viva ligaria pra ela e perguntaria o porquê desse ainda bem. 

14 de mai. de 2015

O cão e uma Gymnopédie



Nem tão perto, nem tão longe 
uma Gymnopédie se ouvia, 
e um cão que uivava como um lobo! 
Não sei se ele ouvia o que eu ouvia.
Talvez não gostasse, 
que em noite sem lua à toa cão não uiva. 
Mas quem sabe do seu chamado? 
Talvez tivesse assustado. 
Ou só triste... 
E se pudesse punha uma música que risse.


8 de jun. de 2014

Até breve... nunca mais.

Parou de falar com os cachorros do prédio, com as crianças, nem mais um simples olá ou bom-dia deu aos vizinhos, que ninguém entendeu. 

--- Teria  brigado com a mãe ou uma desilusão amorosa? - se perguntou um.

Poderia ter discutido e ficado aborrecido com a mãe, se tivesse mãe. Mulher também não tinha, e nenhum caso que se soubesse.

Aposentado, ainda fazia uns bicos consertando fechaduras e relógios de parede, sempre acompanhado pelo cão que nunca usou coleira. Mas quando mudou, mudou mesmo - parou de trabalhar, e pediu para desligar o telefone. 

--- Não tinha TV,  e agora também sem telefone... Será que ficou surdo?  - se questionou outro.

Podia ser, mas não parecia. O velho aparentava boa saúde, e seu cão também. Saíam muito cedo, só voltavam ao anoitecer.

--- Onde iam, como gastavam as horas? - curiosos, pensavam todos. 

O edifício era pequeno, antigo, e abrigava uns tantos desempregados, que falavam alto e viviam discutindo. Tudo era motivo pra encrenca - o filho do outro que deu um chute, o grito de gol do time adversário... Os que não gostavam de discussão eram mestres em intrigas. Aquilo era o exemplo saudável do inferno sem o demônio, e o velho solitário deve ter se enchido daquela gente, que pensava em tudo menos nisso.

-- Pode ter recebido uma notícia lá da sua terra, a morte de algum parente que gostava... - falou o síndico para o bando de briguentos.

Ele era o morador mais antigo, ninguém o viu chegando, nem sabiam se teve mulher, se era viúvo. O sotaque estranho não se identificava a origem, e ele nunca explicou a nenhum, mas quando lhe perguntavam dizia ter nascido ali mesmo. Podia ser, mas não parecia ser.

Numa manhã saiu com seu cão, como de costume, mas não voltou. Nem no outro dia também.

--- Eu sabia! Alguma coisa errada tinha... - comentou seu vizinho do lado.

Um outro alguém também comentou que podia ser um foragido da Justiça.

---  Ele é velho, pode ter morrido na rua, isso acontece! -  disse a vizinha do térreo.

Uma semana depois...

--- E se voltou de madrugada e ninguém viu? Pode estar morto aí no apartamento...  - sugeriu o morador novo, que mal o conhecia.

Quando o policial arrombou a porta do apartamento, entraram todos - o apartamento estava absolutamente vazio e limpo, janelas fechadas, nenhuma cadeira, tapete ou copo. Ninguém viu mudança alguma, nem o velho saindo com alguma tralha além do cão.

--- Ninguém vai embora assim sem um até breve... -  todos querendo respostas.

--- Esse é um país livre, cada um vai quando e pra onde quiser... --- falou o delegado, irritado com aquela gente.

Parentes ele não tinha, e se ninguém da família faz um Boletim de Ocorrência do desaparecimento, a polícia não toma conhecimento.

--- E agora, como vai ficar o apartamento dele? .. Ou não é dele? - perguntou ao síndico, a Sra. do último andar..

--- É dele sim. -  disse o síndico, que ainda não sabia que naqueles dias o velho vendera, e que saiu do banco com uma mala de dinheiro, indo sabe-se lá pra onde com seu cão que nunca usou coleira.

Sobre seu paradeiro ninguém nunca soube, mas tampouco esqueceram a despedida que não teve, aquilo incomodava.

E mesmo muito tempo depois, com os mesmos genes encrenqueiros dos pais, os filhos crescidos continuavam inconformados com o velho que sem um até breve sumiu como veio, sem ninguém ver.

Se alguém achar que a história é chata, que não tem um final, eu respondo sem nenhuma aflição: tem sim, o inferno existe sem o demônio e é aqui mesmo, mas nem todo mundo se sente atraído.     

31 de dez. de 2013

O GRANDE MANICÔMIO

Pistas exclusivas para bikes, mega festas comemorativas para multidões em dias marcados no calendário, idéias públicas para pôr um tempero na vida insossa das grandes cidades.



No dia-a-dia são as calçadas esburacadas cheirando a tetra etila de chumbo, e os pequenos parques esmagados pelas edificações, os espaços onde celulares, e a parafernália eletrônica que se comunica sem se comunicar, passeiam com seus amos.



Quantos não chegam do trabalho exaustos e caem nos assentos em frente a TV, por falta de disposição ou por não se disporem arriscar a vida numa simples caminhada em seus quarteirões.



As grandes cidades engolem o homem porque não é ele a verdadeira razão do Estado, e não será urbanista, psicólogo, polícia ou político, que ajudará. O coração das metrópoles anda mal, as periferias se espalham como tinta derramada sobre um mapa, e nenhuma Lei que tenta organizar esse caos se sobrepõe ao que é regido pelo poder econômico. 



Entre muitas outras coisas, seria mais humano se abrissem clareiras no concreto. Ali mesmo, em muitas partes de qualquer cidade, há espaços cercados à espera de valorização, que o Estado poderia transformá-lo em algo útil à maioria. Poderia, mas não sem as eternas discussões sobre as prioridades do orçamento público, que ao Estado endividado a utopia da transformação não vai nunca além do básico.



E o tal espaço interessante morre antes de nascer. Ninguém viu começar e já temos mais um conjunto de edifícios ou um shopping center no lugar. O planejamento público está sempre atrasado nas soluções dos mega-problemas, corrida perdida se os rumos do desenvolvimento não forem mudados. Isso é válido para todos os cantos, agravado com a pobreza.



E o grande canteiro de obras que são as metrópoles é mais que a geração de empregos ou solução verdadeira para o homem, é uma fábrica de problemas - o medo associado à crescente violência, a insatisfação geral com o caos na movimentação urbana, e tudo aquilo que qualquer um de nós sabe enumerar, fere a cidadania.



E a 'maioria da minoria' encontra na falta de uma boa educação ou nos políticos, a razão de todo o mal. Políticos são mesmo culpados, e educação de qualidade pra todos não existe, ninguém está errado. Mas o que mais pesa nessa balança é a falta de caráter dos que não estão nem aí com nada, que conscientemente ou não, usam o sufrágio para eleger o que há de mais pernicioso ao país, fazendo com que o sistema sofra de uma doença sistêmica à mercê do poder econômico, chaga que não vem do mosquito!



Eu não gosto dessa doença que lesa a pátria, e tampouco sei lidar com esse mosquito que não é um mosquito! Então dispenso a realidade dos insanos, e sonho com um outro tempo, sem cenários com arco-íris ou gente sorrindo sem motivo, sem religião, partidos políticos, mas com o que importa, o remédio simples pra extinguir a doença sistêmica.



Espontaneamente e sem lideranças, de cada cidade, de toda cidade... empresários, pensadores, professores, governantes, os que plantam e colhem com as mãos, os que varrem as ruas... todos reunidos numa mesa deca métrica, refletindo sobre uma única questão, iniciada por "Nós herdamos essa merda e somos responsáveis por isso...".

23 de dez. de 2013

Frederica, e deus e o diabo na terra do sol.

"Que dia infernal, hoje deu tudo errado...". - disse a senhora de meia idade ao menino do seu lado.


"Isso aqui está um inferno". – falou o cobrador, com a gravata toda amarfalhada, a um passageiro que entalou na catraca.


Parecia mais um formigueiro aquele amontoado de gente, nenhuma ideia pode ser concatenada com tantos cheiros, ruídos, caras de "soutine", mas fiquei divagando sobre o porquê de se falar tanto no inferno num dia ruim ou muito quente, e quase nada sobre o céu num momento agradável ou de boa sorte.


Passou dos trinta graus logo se tem em mente uma coca-cola, cerveja bem gelada ou algo de Lúcifer. Estranho que as labaredas flamejantes são o antagônico modelo do cálido azul do paraíso, que ninguém cita nos dias bons.Do paraíso fresquinho das terras etéreas do Senhor, só vez por outra, depois de uma delícia qualquer, escuta-se que 'aquilo é dos deuses', ainda assim só uma referência aos deuses pagãos, e não passa disso. Agora, uma coisa é certa, quem fica bravo à toa, fala alto como os trovões, talha pedra com fogo, isso lá é coisa do divino; ao contrário, o capeta é mudo ou muito educado.


O ônibus freiou de uma vez e só não caiu todo mundo porque não se podia cair, lotado que estava. Na hora pensei na Frederica, a indiazinha que está hospedada em casa - ela não ia entender isso. A pequena veio à cidade por estar no programa de reciclagem cultural criado pela Fundação de Amparo ao Índio pra facilitar a ocupação das terras dos seus parentes.


Frederica...? Como puderam dar um nome desses a uma aborígene? Mas é o que menos importa, pra ela complicado são as aulas de catecismo, que não está compreendendo direito e me faz perguntas, que tampouco sei responder. Queria poder lhe explicar essa história do bem e do mal, mas confesso que não sei por onde começar... e minha cabeça estourando com o calor e aquelas falas sobre as más sortes, citando o inferno a cada instante...


Vozes se misturavam aos braços, coxas, cabelos... nem sei como fui lembrar que aprendi com as freiras do colégio, que ao inferno vão as crianças más e desobedientes, os inconformados, os ladrões, enquanto o céu recebe os que pautaram por uma existência comedida e sem sobressaltos, enfim, os que transbordam de amor. Assim me ensinou o catecismo nas suas primeiras lições, mas nem é preciso ser um estudioso do assunto pra perceber que essa espécie de guerra fria só não passa na TV porque todo curioso que se atreveu conhecer não voltou.


Dúvidas, quem não as tem? Se a ciência  já desvendou com o mapa genético os mistérios do corpo, da alma nada se sabe, muito menos onde se traça o destino dos recém-nascidos. Parece que ali tem uma mãozinha de Jeová e outra de Lúcifer, como se na calada da noite trabalhassem juntos, porque no corpinho do bebê vem grudada a etiqueta, que diz o quanto terá de alegria, de saúde, de doença, de tristeza... Por que o bom deus faria parte desse desastre? Cruz credo!


Não obstante, ao menos em pensamento, a maioria esmagadora dos humanos prefere gozar suas férias prolongadas e obrigatórias nos primaveris campos do éter a arder nas fictícias fogueiras das entranhas da terra. Mas fora as especulações metafísicas, nada se sabe de concreto sobre esses misteriosos czares, se há patrulhamento ideológico pelo grau de bondade ou maldade, nem quantas Chinas haveria nesses mundos, só há pura especulação.


Há quem pense que o ingresso ao céu pode ser adquirido matando em nome de deus. Se assim é, imagino um fim de tarde com as beatas de Santa Catarina tomando ar fresco numa animada conversa com os integrantes do Talibã. Argh... Seria deus psicótico, com múltipla personalidade? Como poderia receber de braços abertos um Pen Xin Xong, um Padre Pio, as crianças ortodoxas russas e seus algozes muçulmanos chechenos?


Sei não! Dizem que o inferno hospeda Galileu, Da Vinci, Giordano Bruno; mas se as tais fogueiras queimassem mesmo como as daqui, o inferno seria um 'não lugar' onde só haveria cinzas, e o diabo seria um joão-carvão qualquer, não um cidadão de primeira classe como é tratado nas Assembleias de Deus.


Depois, Dante fez menção a um inferno gelado...  isso é muito confuso. Às vezes penso que marqueteiro sempre existiu, não é privilégio de político, e aqueles da Galileia podem ter invertido a ordem das coisas, fazendo com que todo inconformado com o mal, fossem os maus, e povoaram o inferno com as crianças rebeldes, os pensadores, os ateus, os verdadeiros artistas; no céu hospedaram só os devotos. 


Lá estou eu blasfemando de novo! Droga, acho que o calor no ônibus está me fazendo delirar. 


Arre, desci! Sopra uma brisa suave na calçada, estou chegando em casa. Da esquina vejo Frederica na sua inocência, pulando feliz em frente ao meu portão.Melhor deixar esses pensamentos pra lá, quando ela crescer certamente saberá resolver isso melhor do que eu. Por hora, transborda de alegria e nem desconfia que está perdendo sua história com uma canetada de gabinete. Melhor assim, nem o relógio, nem a Terra vão mesmo girar ao contrário, e sem infâmias ela ainda seguirá criança por algum tempo.

19 de dez. de 2013

CHAMAVA MATILDE

--- Sabe, Zé, tô cheia dessa vida, tô pensando em a gente se divorciar.
--- Cê que sabe, Matilde, se é o quer mesmo...

--- Pra você tanto faz, né Zé? Pra você, eu e ninguém é a mesma coisa.
--- Isso não. Já passamos por muitas, nunca pensei assim... Depois, e a viagem que a gente ia fazer, como fica?

--- Viagem? Que viagem?
--- Esqueceu que combinamos ir ao Paraguai?

--- Zé, tô com fome, cê não me entende...
--- Quer um café?

--- Tô dizendo, Zé, cê não me entende mesmo, tô com fome, tô com frio, tô cansada!
--- Cê tá deprê, Matilde, isso passa, uma hora tudo passa.

--- Sei não... e essa viagem nunca vai ser...
--- Cê acha mesmo, Matilde? Cê pensa que sou de desistir?

--- Zé, ouve... a gente fala disso desde que se conheceu.
--- Pra ir lá a gente só tem que comprar umas roupas...

--- É, né, Zé, e desde quando a gente não compra umas roupas?
--- Por isso, Matilde, que a gente ainda não foi, mas o Paraguai tá lá, nós tamos aqui, uma hora a gente vai, e lá é quente, nem casaco precisa.

--- Tô com frio, Zé!
--- Com fome e com frio, e ainda pensando em se divorciar... cê tá mesmo fodida, Matilde, tenta se concentrar numa coisa boa... Lembra quando a gente foi no mar?

--- Ah, Zé, sempre cê vem com essa história do mar... nem lembro mais quanto tempo faz que a gente pisou no mar.
--- Matilde, presta atenção! Já num falei um monte de vezes que a gente não pisa no mar...

--- Falou sim, Zé, umas mil vezes, cê é um chato, e egoísta.
--- Egoísta num sou, e o que é certo é certo, Matilde.

--- Então me leva num restaurante, que eu tô com fome!
--- Olha tua cara no espelho... passa um pente nesse cabelo!

--- Vai me levar? Assim, sem banho, Zé?
--- Sem banho. 

--- Vai me levar mesmo?
--- Quanto cê tem aí, Matilde?

Fazia frio e caía uma chuva fina quando meu ônibus chegou. Da janela vi o casal de mendigos se levantando, pondo coisas numa sacola até desaparecer da minha vista quando o ônibus fez a primeira curva.

14 de out. de 2013

O CELULAR NA ARQUITETURA E ENGENHARIA

O CELULAR NA ARQUITETURA E ENGENHARIA
Fiquei impressionado numa obra quando vi os pedreiros programando seus celulares. Eles põem músicas, põem créditos, jogam, mas não sabem Pitágoras, tabuada, nem ler plantas.


Habilidade é algo curioso, como inteligências múltiplas. Bernard Shaw disse que não entendia nada de números, nem fazendo a prova dos nove tinha certeza do resultado, mas sobre o idioma que escrevia só ia ao dicionário quando precisava de um terceiro ou quarto sinônimo.


O mundo é cheio de inutilidades as quais abandonamos por não ver sentido algum, mas estranho não são as escolhas que o inconsciente faz, que tornam mais fáceis isso que chamamos de habilidades, estranho são as inabilidades com o trabalho que se escolhe.


Um escritor tem que conhecer e gostar das palavras, ninguém pode ajudá-lo nessa tarefa. Difícil imaginar um livro escrito por quem detesta a escrita.Da mesma forma trabalhar numa obra, seja pedreiro, marceneiro, armador, serralheiro, é preciso conhecer um pouco mais que a aritmética básica que serve à maioria (inclusive ao escritor), mas não ao profissional da construção. 

E o que se vê é algo muito diferente -- estão lá porque lá estão... e de um jeito ou de outro são os que constroem, que destroem.


Mal remunerados que são, jogam dinheiro fora que não veem. Falta escola, claro, mas fico pensando se aprender a usar nível, esquadro e prumo, um pouco de tabuada, que é o básico na engenharia e arquitetura, não teria um jeito de vir disfarçado num joguinho qualquer de um Celular.